História e Canavial |

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 104

OS BLOCOS DAS VITÓRIAS DE NOSSOS CANAVIAIS

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

A semana passada nós conversamos um pouco sobre a música e a dança que tem um significado especial para os pernambucanos: o frevo. Inventado e crescido nas ruas do Recife, diferentemente do que muitos pensam essa dança e esse ritmo não ficou preso nas ruas da capital. Se um dia alguém for estudar onde o frevo é tocado e dançado em Pernambuco, vai anotar, em seu livro, nomes de cidades de todas as regiões de Pernambuco. É que esse ritmo de liberdade foi sendo espalhado pelo território pernambucano nos trilhos dos trens. Pernambuco inteiro dança o frevo que é uma dança da liberdade republicana, como as principais e mais vivas tradições pernambucanas, como é o caso do Maracatu Rural que vem crescendo em número a cada ano, apesar dos prefeitos e governadores preferirem transferir a renda dos municípios e do estado para as bandas eletrônicas ao invés de apoiarem as orquestras e os clubes da região. É claro que precisamos trazer artistas e bandas de fora para que possamos trocar experiências e ter novos conhecimentos, mas é necessário que haja uma melhor paga aos artistas locais e da região. A globalização não significa apenas receber o que vem de fora, mas é também fortalecer o que temos para poder mostrar o que somos.

Não é segredo para ninguém que “quando o povo decide cair na frevança, não há quem dê jeito, agüenta o rojão, fica sem comer, mas no fim, tá tudo ok” já explicava o grande maestro Nelson Ferreira no frevo-canção O Bloco da Vitória. Quando ele escreveu esses versos estava havendo importantes mudanças na vida social e política do Brasil e essas mudanças terminam por aparecer na criação cultural.

Em 1962, pelo Acordo do Campo, pela primeira vez os cortadores de cana passaram a receber o salário mínimo. Isso quer dizer que os cortadores de cana podiam se libertar do barracão do engenho e da usina. Foi o primeiro acordo assinado entre os trabalhadores e os donos das terras. Era quase um novo treze de maio, pois agora o trabalhador sabia que podia escolher onde e o que comprar. Era a liberdade e o começo de um novo tempo de alegria, embora os problemas continuassem existindo. Mas a alegria fez aparecer muitos blocos no carnaval de 1963. Eram blocos que saiam dos povoados dos engenhos, saiam tocando uma marcha acelerada, com uma caixa, um zabumba e uma sanfona. Era a época das Caravanas que iam de engenho a engenho para alegrar e divertir.  A maior parte desses blocos deixou de existir. Mas em Tracunhaém tem o Bloco Rural Andaluza que foi criado no Engenho dos Abreus no ano de 1963. Ainda sob o comando do Mestre Emeliano, o Bloco Andaluza faz a alegria de Tracunhaém e de outras cidades da Mata Norte.

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

O Programa Canavial desta semana homenageia o Bloco Rural Andaluza nos seus 47 anos de lutas e glórias, ao mesmo tempo em que lembra aos prefeitos e a todos os cidadãos da Zona da Mata Norte que é nossa obrigação apoiar os artistas que fazem a alegria de nossos carnavais.

 

Para os dias 11 e 12 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 98
 

O DOCE DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva
 

Meus amigos,

Estamos no final do ano e este é um tempo de verificar o que fizemos, nos alegrarmos pelo que foi feito e também ver o que poderemos melhorar no próximo ano.  Um dos motivos de alegria é o que ocorreu com a Pretinhas do Congo do Baldo do Rio,  de Goiana. Este ano, o grupo cultural que é mantido pela população de pescadores e trabalhadores de várias artes manuais do Baldo do Rio, apresentou-se em várias cidades de Pernambuco, assumindo o seu lugar em nossa Nação Cultural.

Neste final de ano, a  Pretinhas do Congo do Baldo do Rio está fazendo um encontro histórico na cidade de Floresta, no Sertão do Pajeú. É a festa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Igreja do Bom Jesus, onde ocorre a coroação do Rei e Rainha do Congo.  Festa dedicada a São Benedito,  marca o final e início do ano naquela cidade sertaneja que nasceu em torno da devoção de Nosso Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Que alegria da Pretinhas do Congo nesta festa que tem mais de duzentos anos. Um grupo cultural da Mata Norte de Pernambuco na festa cultural do Sertão do Pajeú. Vale lembrar para os tradicionais folcloristas, que esta festa de coroaçao do Rei do Congo não se transformou em Maracatu e continua sendo realizada no interior da Igreja. A Irmandade de Nosso Senhor do Rosário dos Pretos de Floresta é Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
 Outra alegria para nós foi a realização do Festival Canavial envolvendo Tracunhaém, Vicência, Nazaré da Mata, Condado e Goiana. Nossos grupos culturais estão cada vez mais cooperativos e animados. O Movimento Canavial está de parabéns, seja pela realização dos programas nas rádios comunitárias que, cada vez mais informam sobre a nossa cultura, nossos hábitos, nossas realizações, nossas dificuldades e nossos objetivos.
O Programa Canavial fica contente com a publicação do Jornal da Banda 28 de julho, de Condado, cada vez mais organizada e ativa, como também é ativa a Banda Curica de Goiana. Ficamos felizes com o Encontro de Ciranda realizada em Tracunhaém, e nos alegramos com o Encontro de Sanfoneiros de Vicência, que foram resultados de projetos nascidos e pensados e apresentados por gente e Pontos de Cultura de nossa querida Zona da Mata. Também vimos se realizados o Primeiro Encontro com os pequenos mestres da nossa cultura e o Priumeiro Encontro de Coquistas da Mata Norte.  Também aconteceu um curso de produção de instrumentos musicais. Foram tantas as iniciativas nascidas, construídas e realizadas na nossa Região da Mata Norte por pessoas daqui, por gente que a gente encontra na rua diariamente. Isso mostra que nós continuamos a ser um lugar de criação cultural e que a nossa juventude é uma juventude alegre, cuidadosa, criativa e que está construindo uma região cada vez melhor e mais consciente de si mesma.
Mas precisamos que as nossas escolas, os nossos professores, os líderes de nossas comunidades, os padres, os pastores, os babalorixás, os prefeitos, vereadores, juízes e todas as autoridades da região continuem a alimentar a esperança de nossa juventude, confiando nela e nas suas iniciativas. O verdadeiro doce da Mata Norte é a esperança e a certeza de nossas gerações.
Feliz Ano Novo com muitas realizações em 2001.
Esses são os desejos do Programa Canavial.

Para os dias 31 de dezembro de 2010 e 1º de janeiro de 2011

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set/10

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 84

1º         ENCONTRO DE COQUISTAS DA ZONA DA MATA NORTE PERNAMBUCANA

Severino Vicente da Silva

 

Meus Amigos,

Nesta semana, desde o dia 23 de setembro até o dia 26 está acontecendo na cidade de Goiana o Primeiro Encontro de Coquistas da Zona da Mata Norte Pernambucana. Esta é uma excelente oportunidade que nós temos para conversar e conhecer um pouco a tradição da dança e música do Coco. Essa tradição vem de tempos antigos, da época em que muitos homens escravizados aproveitaram a confusão causada pela invasão dos holandeses para fugir dos engenhos de Pernambuco e se esconderam nas matas, formando quilombos. Foram muitos quilombos que se formaram nas matas do Agreste, desde Chã Grande até União dos Palmares. Aliás, esse nome é porque lá havia o maior dos quilombos que formaram o Quilombo dos Palmares, que era parte de Pernambuco. Ali, misturados com os índios, esses negros livres criaram um território de liberdade e de trabalho. Ao se juntarem para quebrar os cocos tirados das palmeiras, eles criaram um ritmo a partir do barulho das pedras nos cocos e, depois imitaram esse barulho com as palmas das mãos. E cantavam para ajudar diminuir o cansaço do trabalho. Como estamos entendendo, o coco é uma tradição de homens e mulheres trabalhadoras, que inventaram uma dança a partir de sua ocupação. Os quebradores de coco passaram a ser dançadores de Coco. E como um deles ficava tirando versos e gracejos, esse tirador de versos ficou sendo o Tirador de Cocos, o poeta que cantava as brincadeiras do grupo. Quando foi destruído o Quilombo dos Palmares, os sobreviventes se espalharam pelo interior e por isso o Coco pernambucano é cantado e dançado em todo o Nordeste.

Coco de roda

Coco de roda

 

Mas a dança do Coco durante muito tempo não foi bem aceita, ele era dançado e cantado pelos mais pobres, pelos que viviam na beira das cidades e povoados, quase nas matas. Mas o Coco hoje é conhecido no Brasil e no mundo e não há um só tipo de Coco: tem Coco de Roda, Coco de Umbigada, Coco de Palma, Coco de Embolada, Coco Agalopado e muitos outros que se dançam e se cantam desde as praias até os sertões.

O PROGRAMA CANAVIAL parabeniza todo o pessoal que está realizando esse festival na Cidade de Goiana e convida todos para participar da Oficina e do Seminário que ocorrem no dia 25,  e das apresentações nas noites dos dias 24, 25 e 26 de setembro.

 

    Escrito para os programas dos dias 24 e 25 de setembro de 2010

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 75

SOLIDARIEDADE E REPLANTIO DAS MATAS CILIARES

Severino Vicente da Silva

Caros amigos,

Faz pouco mais de um mês que ocorreram fortes chuvas e o nível de alguns rios subiram e as águas atingiram casas de pessoas, algumas  nossas conhecidas, outras que nós nem mesmo sabíamos de sua existência. As suas casas estavam construídas muito próximas do leito dos rios. Por causa disso até mesmo escutamos algumas pessoas dizerem que eles não deviam ter construído as casas naquele lugar.

Rio sem mata ciliar

Rio sem mata ciliar

Entretanto, nós sabemos que as famílias que construíram suas casas naquele lugar vieram dos sítios dos antigos engenhos e, não tinham dinheiro para comprar terrenos em outros lugares. Nós sabemos que a terra custa muito caro e os pobres não podem comprar terras em boa localização. É por isso que as águas das enchentes dos rios atingem principalmente os mais pobres, os que já sofrem muito.

As forças da natureza, como a chuva, o vento, as enchentes não são as causadoras do sofrimento, mas o sofrimento dos homens e das mulheres é resultado de ações de outros homens e mulheres. As forças da natureza apenas tornam a miséria maior.

Solidariedade

Solidariedade

Mas nós vimos que, na hora do maior sofrimento, foram muitas as pessoas que saíram de suas casas para ajudar os que tiveram as casas invadidas pelas águas; nós vimos que muitos recolheram alimentos, roupas, material de limpeza para dar a que estava em extrema necessidade. A isso nós chamamos de solidariedade, de dividir o que se tem para diminuir a dor de quem está sofrendo.

Agora que as águas baixaram, nós não podemos deixar de ser solidários. Ainda tem gente que está precisando de ajuda. Mas nós podemos ajudar a evitar, não as enchentes, pois elas são da natureza, mas podemos evitar o sofrimento que as enchentes causam. Uma maneira é verificar se no nosso município vão ser replantadas as matas que existiam perto dos rios, pois essas matas diminuem a força das enchentes.

Rio com mata ciliar

Rio com mata ciliar

Hoje, O PROGRAMA CANAVIAL quer lembrar que cada um de nós, cidadão das cidades da Mata Norte é responsável pela política de reflorestamento. O PROGRAMA CANAVIAL deseja que as autoridades da Região da Mata Norte promovam o replantio das matas ciliares, as matas das margens dos rios, que sejam diminuídos os sofrimentos causados pelas enchentes.

Texto escrito para os programas dos dias 23 e 24 de julho de 2010.

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mai/10

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Patrimônio Sacro em perigo

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 67

 

AS IMAGENS DAS IGREJAS DA MATA NORTE SÃO PATRIMôNIO DE TODOS NÓS.

Severino Vicente da Silva

 

O mês de maio sempre foi dedicado ao culto da Virgem Maria, honrada pelos católicos como a Mãe de Jesus. Em todas as igrejas católicas eram realizadas noites de orações patrocinadas por paroquianos, que eram chamados de “noiteiros” e, o mês terminava com festa de coroação da imagem e foguetórios em frente da igreja. Era o mês de maio, o tempo escolhido para a realização de muitos casamentos, como se todos esperassem ser abençoados pela Maria, madrinha de muita gente pobre dessa região. Mas este mês de maio que termina na próxima segunda feira foi de grande tristeza pois foram roubadas imagens de igrejas em Tracunhaém e Goiana.

São Francisco

São Francisco

Quando apreciamos as santas e os santos que nascem da imaginação e das mãos dos santeiros de Tracunhaém, nós nem imaginamos que, esses artistas, quando meninos eles entraram nas igrejas, e ficavam olhando aqueles santos nos altares, vendo seus rostos, as suas roupas, os movimentos de suas mãos e calma dos seus rostos. E tudo ficou guardado no mais profundo de suas memórias. Depois, mesmo sem se lembrarem dos tempos de meninos e meninas, esses artistas refizeram aquelas expressões, criaram novos santos. Quem anda em Tracunhaém anda numa espécie de céu, cheio de santos: são Franciscos, Josés, Marias,  Antonios, e anjos, muitos anjos, sempre com leões, pássaros, cobras, bois, como se tudo estivesse em uma imensa Arca, uma nova Arca de Noé. A mesmo sensação se tem quando uma pessoa entra no atelier de Zé do Carmo. Esses santeiros da Mata Norte criam um novo Patrimônio Cultural, continuando e enriquecendo o patrimônio que nossos antepassados deixaram nas igrejas de nossas cidades. E temos que proteger tanto o antigo como o novo patrimônio, pois eles são um só. As autoridades civis, governamentais e religiosas precisam tomar mais cuidado com a riqueza de nosso patrimônio.

Nossa Senhora e São José de Botas

Nossa Senhora e São José de Botas

Por falta de segurança, estamos perdendo nossas imagens para gente rica de outros lugares que pagam alguns ladrões que chegam e tomam o que é nosso. Este mês de maio nós perdemos uma imagem de São José de Botas e uma Nossa Senhora. Essas imagens fazem parte de nossa cultura, de nossa existência. Já perdemos muito de nosso patrimônio com a destruição de casas grandes e de engenhos. E se continuarmos a deixar que nos levem o pouco que restou de nosso passado histórico, nós desapareceremos na história, como muitos animais e plantas já não mais existem em nossa região dominada pelo amargor do açúcar.

O Programa Canavial pede que cada morador, cada prefeitura, das cidades da Mata Norte se torne um protetor de nosso patrimônio.

Editorial escrito para os dias 31 de maio e 1º de junho de 2010.

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