História e Canavial |

CAT | Cultura

Como todos os sábados, chego ao Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança para acompanhar as ações do Ponto de Leitura. Os vinte jovens, desde os quatro anos até aquele que está com dezesseis anos, dividem-se em três grupos sob a orientação de Wanessa, Manuela, Daniela e Érica. O Tema geral deste mês a busca da compreensão de que o Brasil precisa desenvolver a sua consciência de que parte de sua cultura está ligada à tradições vindas da África, trazidas por vários povos que foram vendidos para serem escravos no Brasil. Para termos uma consciência brasileira é necessário que desenvolvamos uma consciência de somos, também, negros africanos. Enquanto os trabalhos ocorriam em lugares diversos, os mais velhos estavam sentados à sombra de uma jaqueira, conversando sobre a travessia dos navios tumbeiros; os menores ocuparam uma das salas da Biblioteca Mestre Batista e conversavam sobre como as máscaras podem ser feitas e as faziam, eu fui analisar os novos livros que chegaram para o nosso acervo. Folheando, analisando os temas fui surpreendido pelo exemplar que nos foi enviado pelo Museu da Pessoa, que está em São Paulo, MEMÓRIAS DE BRASILEIROS, UMAS HISTÓRIA EM TODOS OS CANTOS, contando muitas Histórias de pessoas, depoimentos de gente que está construindo o Brasil. O livro foi editado em 2008. Na parte dedicada a Pernambuco tem a história de Paulo Freire, Suzane Brust, Vanere Almeida e José Bernardo da Silva, o Mestre Zé Duda do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Nesta quinzena está ocorrendo o Festival Canavial, que põe juntos artistas da nossa região e artistas de visibilidade no mercado cultural comercial. É uma oportunidade para nos contrapormos às tendências artísticas de apelo dito “popular”, mas repetição criativa nem sempre de boa qualidade ou que estimule um aperfeiçoamento dos espíritos e das boas tradições. Hoje à noite ocorrerá a apresentação de filmes de animação, criação de jovens que freqüentam oficinas organizadas pelo Ponto de Cultura Cinema de Animação da cidade Igarassu. Assim abrimos veredas para a imaginação e apontamos novos caminhos à beira dos canaviais de Aliança. Ver o depoimento de Mestres da Cultura brasileira, ler suas memórias em livros que podem ser acessados nos diversos espaços nacionais, é sempre uma vereda para a criação de novas interpretações da história do Brasil

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 107

A CAÇADA DO BODE E A GLÓRIA DA VIDA

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Estamos na Semana Gorda – Sexta feira Gorda, Sábado de Zé Pereira, Domingo de Carnaval, Segunda Feira Gorda, Terça Feira Gorda, Quarta Feira Ingrata: é a semana do carnaval. Houve um tempo que era apenas três dias essa semana. “carnaval só tem três dias, foi os anjos que criou”, diz um frevo canção orquestrado por Nelson Ferreira. Hoje são muitos dias, pois vivemos em uma sociedade festiva na qual o trabalho é apenas uma atividade a mais enquanto se vive em busca do divertimento e dos espetáculos. E o carnaval parece ser apenas mais uma festa onde as pessoas cantam, bebem, dançam, se alegram e fazem o que normalmente não é feito. Mas não foi assim em todas as sociedades e, no Brasil, uma que é formada por muitas culturas o carnaval, para alguns brasileiros, não é assim. O carnaval é uma celebração às forças divinas.

As mais antigas festas do que chamamos carnaval era uma celebração em homenagem à deusa da primavera, a que traz a força da vida, a fertilidade da terra, a terra que nos alimenta com sua vegetação, suas aves e animais que sempre foram objeto de caça para a alimentação das tribos.

Capivara

Capivara

Meus amigos, muito antes desta nossa terra ser conhecida pelos europeus, muito antes de aqui chegarem os povos trazidos da África, aqui havia muitos povos, nações que estão hoje esquecidas e que falavam línguas diferentes da que falamos hoje, mas interessante é que nós ainda falamos as palavras que eles criaram, mesmo de maneira modificada. Pois veja como somos esses povos que não nos dizem, por isso falamos as palavras de antigamente. Os portugueses chegaram aqui em Igaraçu, ou seja, Canoa grande; eu tenho amigos que moram em Areia Branca, que é o sentido da palavra  Itaquitinga; outros amigos moram em Lagoa que Secou, quero dizer Upatininga; e o Mestre Batista, fundador do Maracatu Estrela de Ouro está enterrado na Casa de Tupá, que é Tupaoca. Mais perto do mar fica a Pedra que canta, que é o significado de Itamaracá, e para chegar lá eu preciso passar por Pedra Negra, ou seja, Itapissuma. A gente poderia continuar mostrando como a gente fala a língua dos nossos antepassados, mas como é tempo de carnaval, vamos conversar sobre a Caçada do Bode.bode

Como é sabido por todos, os povos que nossos antepassados viviam da caça e da pesca. O que eles caçavam era as capivaras, as antas, as cutias, os tatus, os veados, os jacus e muitos outros animais. Um dos preferidos era o veado. Hoje, como não há mais veados nas matas, as tribos de índios e caboclinhos que saem no carnaval, passam a noite do sábado em vigília e, na madrugada do domingo saem para a caça, e caçam um ou vários bodes que serão sacrificados para fazer a alimentação de todos da tribo que saem durante os três dias de carnaval. Depois do carnaval, na quarta feira, esses animais que foram mortos servem de alimento para toda a tribo que lutou durante os três dias para a glória da tribo. O carnaval, que parece ser uma guerra para conquistar as ruas e as cidades, termina na quarta feira com um grande banquete com muita comida resultante da caça do bode, um animal que simboliza muitas coisas, inclusive a caça que nossos antepassados faziam pata garantir a sobrevivência de toda a tribo.  

Meus amigos, essa tradição de nossos mais antigos antepassados é mantida em Goiana, na madrugada do domingo de carnaval pela Tribo Índio Tabajara, pela tribo União Sete Flexas de Goiana, pela Tribo Caboclinho Canidé.

caboclinho de Goiana - PE

caboclinho de Goiana - PE

Nós, do PROGRAMA CANAVIAL desejamos uma boa caçada às nossas tribos de índios e de caboclinhos; desejamos também que a felicidade dessa caça coletiva seja sinal da benção que a mãe natureza, com a Jurema Sagrada, o Espírito Santo, Oxóssi e a força de vontade de todos os homens e mulheres façam, do nosso carnaval uma eterna saudação à Vida.

 

 

Para os dias 4 e 5 de março de 2011

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fev/11

17

As burrinhas de Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 105 

AS BURRINHAS

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Nos dias de carnaval as ruas de nossas cidades ficam bem mais interessantes, pois nelas encontramos o passado delas, o nosso passado desfilando e nos fazendo sonhar e sorrir. Nos dias anteriores ao carnaval, já podemos encontrar crianças batendo lata acompanhando um urso e um caçador, aos gritos de “a La ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”, e, sem saber elas estão contando um tempo dos antepassados europeus, na Idade Média, que caçavam ursos e os levavam à feira para se divertirem. Pois é, nós não temos ursos, mas temos a brincadeira de uma das raízes formadoras da nossa cultura. E tem muito mais coisas que as ruas do carnaval nos ensinam de nossa história. Por exemplo, sabemos que o Maracatu de Baque Solto conta a vida e luta dos nossos antepassados indígenas que se tornaram caboclos para escapar da morte dos que lhes queriam tomar as terras. Por isso eles são guerreiros nessa luta simbólica. Mas no Maracatu Rural, como em outros brinquedos da Zona da Mata  e de outras partes do Brasil, tem um personagem interessante: a burrinha.

Quando passa o Maracatu, na frente vem o Bastião, a Catirina ou Catita e também a burrinha. Eles correm abrindo espaço para o Maracatu, e a Burrinha e com o seu relho põe os curiosos para mais distantes, abrindo espaço para os guerreiros e a tribo passar. A Burrinha é muito importante e está na construção da vida em todo o Brasil.

Uma vez escutei do meu querido Manuel Correia de Andrade, geógrafo que nasceu no engenho Jundiá, em Vicência, que nenhum animal foi mais importante na formação do Brasil que as mulas ou burros.  Eles são animais de forte ‘personalidade’ e difíceis de serem domados, mas são resistentes e por isso sempre foram usados para o transporte de cargas. Na nossa região, até pouco tempo, esses burros eram usados para transportar molhos da cana desde o canavial até os engenhos. Muitos homens trabalharam ao lado desses animais com cambiteiros, mesmos sem serem seus donos, pois elas pertenciam ao senhor de engenho que tomavam muito cuidado para que elas não fossem roubadas. Os caboclos mais velhos sabem da importância dessas burras.

As burras, vez por outra, eles empacavam e por teimosia não saiam do lugar, pois sua personalidade forte exige que sejam respeitadas e gostam de serem tratadas com carinho. Claro que no carnaval feito pelo povo as burrinhas encontraram seu lugar e são muito admiradas pelas crianças que gostam de brincar com elas, mesmo sabendo que elas saem correndo e pondo todo mundo a correr. As burrinhas são alegrias na frente das tribos de caboclos ou quando saem com um grupo tocando bombo, um tarol, um agogô, garrafas ou latas.

Da mesma forma que as burrinhas foram, e ainda são instrumentos dos homens para a construção da riqueza, nos nossos carnavais elas embelezam os dias de carnaval. Nas cidades dos canaviais sempre há algumas burrinhas que a cada ano saem a desfilar nas ruas das cidades. Em Goiana há muitos jovens que formaram grupos de percussão para acompanhar uma Burrinha. Lá a mais famosa burra atualmente é burra de Serginho que segue a tradição de Mestre Miguel e vem se tornando um símbolo do carnaval goianense.

O Programa Canavial nesta semana deseja homenagear todas Burrinhas de Carnaval que animam nossas cidades e fazem correr de susto e alegria as crianças, adocicando nossa existência, ao mesmo tempo que nos lembram as muitas jornadas nos canaviais de nossa terra. Viva as Burrinhas!!!!!

 

Para os programas dos dias18 e 19 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 104

OS BLOCOS DAS VITÓRIAS DE NOSSOS CANAVIAIS

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

A semana passada nós conversamos um pouco sobre a música e a dança que tem um significado especial para os pernambucanos: o frevo. Inventado e crescido nas ruas do Recife, diferentemente do que muitos pensam essa dança e esse ritmo não ficou preso nas ruas da capital. Se um dia alguém for estudar onde o frevo é tocado e dançado em Pernambuco, vai anotar, em seu livro, nomes de cidades de todas as regiões de Pernambuco. É que esse ritmo de liberdade foi sendo espalhado pelo território pernambucano nos trilhos dos trens. Pernambuco inteiro dança o frevo que é uma dança da liberdade republicana, como as principais e mais vivas tradições pernambucanas, como é o caso do Maracatu Rural que vem crescendo em número a cada ano, apesar dos prefeitos e governadores preferirem transferir a renda dos municípios e do estado para as bandas eletrônicas ao invés de apoiarem as orquestras e os clubes da região. É claro que precisamos trazer artistas e bandas de fora para que possamos trocar experiências e ter novos conhecimentos, mas é necessário que haja uma melhor paga aos artistas locais e da região. A globalização não significa apenas receber o que vem de fora, mas é também fortalecer o que temos para poder mostrar o que somos.

Não é segredo para ninguém que “quando o povo decide cair na frevança, não há quem dê jeito, agüenta o rojão, fica sem comer, mas no fim, tá tudo ok” já explicava o grande maestro Nelson Ferreira no frevo-canção O Bloco da Vitória. Quando ele escreveu esses versos estava havendo importantes mudanças na vida social e política do Brasil e essas mudanças terminam por aparecer na criação cultural.

Em 1962, pelo Acordo do Campo, pela primeira vez os cortadores de cana passaram a receber o salário mínimo. Isso quer dizer que os cortadores de cana podiam se libertar do barracão do engenho e da usina. Foi o primeiro acordo assinado entre os trabalhadores e os donos das terras. Era quase um novo treze de maio, pois agora o trabalhador sabia que podia escolher onde e o que comprar. Era a liberdade e o começo de um novo tempo de alegria, embora os problemas continuassem existindo. Mas a alegria fez aparecer muitos blocos no carnaval de 1963. Eram blocos que saiam dos povoados dos engenhos, saiam tocando uma marcha acelerada, com uma caixa, um zabumba e uma sanfona. Era a época das Caravanas que iam de engenho a engenho para alegrar e divertir.  A maior parte desses blocos deixou de existir. Mas em Tracunhaém tem o Bloco Rural Andaluza que foi criado no Engenho dos Abreus no ano de 1963. Ainda sob o comando do Mestre Emeliano, o Bloco Andaluza faz a alegria de Tracunhaém e de outras cidades da Mata Norte.

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

O Programa Canavial desta semana homenageia o Bloco Rural Andaluza nos seus 47 anos de lutas e glórias, ao mesmo tempo em que lembra aos prefeitos e a todos os cidadãos da Zona da Mata Norte que é nossa obrigação apoiar os artistas que fazem a alegria de nossos carnavais.

 

Para os dias 11 e 12 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL

 

O FREVO DE PERNAMBUCO TEM GOSTO DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Nós sabemos que a festa de Carnaval é uma festa de sentido religioso, desde os tempos mais antigos, começou muito tempo antes da existência do Brasil e dos brasileiros. Dizemos que “nós temos o melhor carnaval do mundo”, mas ele não é o mais antigo.

Alguns entendem que no começo foi uma festa para homenagear a fertilidade da terra e por isso se come e se bebe muito nesses dias de fartura, quando uma das principais figuras é o Rei Momo, um gordo sempre contente, risonho, com um copo de bebida em uma mão e um pedaço de carne na outra. O carnaval é um feriado em que a graça é ser diferente do que se é no resto do ano, é um período em que o mundo fica de cabeça para baixo, ou seja, muito diferente, tão diferente que ninguém se preocupa em trabalhar, mas apenas em se divertir. E esse desejo de diversão coletiva é quase uma necessidade depois de um ano de trabalho, sofrimento e seriedade. No carnaval tudo é brincadeira, prazer e alegria. É um período em que cada um pode ser um rei, ou seja, o carnaval é  um período em que todos podem se divertir, comer, beber, cantar e dançar.

E cada um inventa sua maneira de ser rei, ser palhaço, ser menino, ser o que quiser. E dança como quer e inventa dança e inventa música. Um das razões de o carnaval ser tão interessante é que cada um inventa o seu jeito de brincar e de ser feliz. Ninguém tem que imitar outra pessoa para ser reconhecida e apreciada. Por isso é que são criados tantos blocos, tantos clubes, tantas figuras, tantos sons, tantas batucadas, e tantas roupas diferentes. O Carnaval é a festa e o desfile da criatividade, diferente dos desfiles cívicos e das procissões, onde todos se vestem do mesmo jeito e andam e cantam do mesmo modo. No carnaval cada grupo dança como quer.

Em Pernambuco tem muitas maneiras de brincar carnaval, de dançar para mostrar a alegria e a vitalidade. Uma delas é conhecida como FREVO, uma maneira de dançar que foi sendo criada nas ruas estreitas do Recife desde o final do século XIX, mas que tomou esse nome no início do século XX. É uma dança guerreira, de homens e mulheres ocupando os espaços das ruas, acompanhando as bandas de música que tocavam dobrados militares, mas quando eram contratados para acompanhar os grupos de trabalhadores no período do carnaval, tocavam em compassos mais rápidos, fazendo com que as pessoas que escutavam a música inventassem maneiras de acompanhar a música com o movimento de seus corpos. A música ajudava a aquecer os corpos dos que seguiam a orquestra e todos como que sentiam o sangue ferver, ou “frever”. Assim é que no dia doze de fevereiro de 1907 apareceu a palavra frevo em um jornal do Recife, o Jornal Pequeno. Nesta semana se festeja o dia do Frevo, a música e dança do nosso carnaval, uma dança que depende da criação de cada dançante. E tem sido na Mata Norte de Pernambuco que se formaram grandes maestros de orquestra de frevo, os maiores arranjadores de nossa música como é o caso do Maestro Duda, nascido em Goiana, tendo estudado na Saboeira; o Maestro José Menezes, nascido em Nazaré da Mata;o Maestro Nunes, natural de Vicência.

Nesta semana, o PROGRAMA CANAVIAL deseja que os dirigentes de nossas cidades voltem a apoiar as nossas orquestras para que floresçam novos maestros em nossas bandas.

   

Para os dias 4 e 5 de fevereiro de 2012.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 100

15 DE JANEIRO DE 1685 – VILA DE GOIANA, CABEÇA DA CAPITANIA DE ITAMARACÁ

Severino Vicente da Silva

 

 

Meus amigos,

A Nação Cultural Pernambuco tem muitas vertentes, e todas elas estão repletas de criatividade, de bravura, solidariedade, ternura, músicas, ritmos, crenças, lugares sagrados, tudo sendo resultado de ações de homens e mulheres enquanto criavam seus filhos e filhas. As regiões geográficas de Pernambuco se confundem com as regiões culturais e, cada uma dessas regiões parece ter uma ou duas cidades símbolos. Assim, quando dizemos a palavra Sertão, é quase certo que nos vem à cabeça nomes como Petrolina, Exu, Serra Talhada.  Se dissermos Agreste Pesqueira, Garanhuns, Caruaru, Limoeiro e Surubim logo são lembradas. Litoral é região que lembra Olinda, Recife, Ponta de Pedras, Porto de Galinhas. E quando a palavra é Zona da Mata, no sul é Palmares e no Norte é Nazaré, Timbaúba, Vicência e Goiana.

Cada uma dessas cidades tem um mundão de histórias, e os homens e as mulheres criaram o tempo e o dividiram em semanas, meses, anos e séculos. Os seres humanos contam suas vidas contando os dias que vivem e lembrando alguns desses dias como momento a ser lembrado, que marca o início de um novo tempo.  Tem quem chame esses dias especiais como sendo datas históricas.

Meus amigos, o editorial de hoje quer se interessar por uma data histórica e importante para toda a Zona da Mata Norte, pois essa data, 15 de janeiro, nos lembra que no ano de 1685, Goiana passa a ser considerada uma vila, passando a ser a capital ou cabeça da Capitania de Itamaracá. E a Zona da Mata Norte era parte da Capitania de Itamaracá. Ao considerar Goiana como Vila – cidade – o governo do Império Português reconhecia a importância daquele povoado que vinha crescendo desde 1540. Pode-se dizer que o 15 de janeiro deve ser considerado um aniversário de Goiana como Cidade. O Programa Canavial Parabeniza Goiana por essa data, por ser uma das mais antigas cidades do Brasil. Goiana, Cabeça da Capitania de Itamaracá, cidade que deu origem a muitas cidades da Zona da Mata de Pernambuco. Parabéns à Goiana dos Caboclinhos.

Para os programas dos dias 14 e 15 de janeiro 2011.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 98
 

O DOCE DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva
 

Meus amigos,

Estamos no final do ano e este é um tempo de verificar o que fizemos, nos alegrarmos pelo que foi feito e também ver o que poderemos melhorar no próximo ano.  Um dos motivos de alegria é o que ocorreu com a Pretinhas do Congo do Baldo do Rio,  de Goiana. Este ano, o grupo cultural que é mantido pela população de pescadores e trabalhadores de várias artes manuais do Baldo do Rio, apresentou-se em várias cidades de Pernambuco, assumindo o seu lugar em nossa Nação Cultural.

Neste final de ano, a  Pretinhas do Congo do Baldo do Rio está fazendo um encontro histórico na cidade de Floresta, no Sertão do Pajeú. É a festa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Igreja do Bom Jesus, onde ocorre a coroação do Rei e Rainha do Congo.  Festa dedicada a São Benedito,  marca o final e início do ano naquela cidade sertaneja que nasceu em torno da devoção de Nosso Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Que alegria da Pretinhas do Congo nesta festa que tem mais de duzentos anos. Um grupo cultural da Mata Norte de Pernambuco na festa cultural do Sertão do Pajeú. Vale lembrar para os tradicionais folcloristas, que esta festa de coroaçao do Rei do Congo não se transformou em Maracatu e continua sendo realizada no interior da Igreja. A Irmandade de Nosso Senhor do Rosário dos Pretos de Floresta é Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
 Outra alegria para nós foi a realização do Festival Canavial envolvendo Tracunhaém, Vicência, Nazaré da Mata, Condado e Goiana. Nossos grupos culturais estão cada vez mais cooperativos e animados. O Movimento Canavial está de parabéns, seja pela realização dos programas nas rádios comunitárias que, cada vez mais informam sobre a nossa cultura, nossos hábitos, nossas realizações, nossas dificuldades e nossos objetivos.
O Programa Canavial fica contente com a publicação do Jornal da Banda 28 de julho, de Condado, cada vez mais organizada e ativa, como também é ativa a Banda Curica de Goiana. Ficamos felizes com o Encontro de Ciranda realizada em Tracunhaém, e nos alegramos com o Encontro de Sanfoneiros de Vicência, que foram resultados de projetos nascidos e pensados e apresentados por gente e Pontos de Cultura de nossa querida Zona da Mata. Também vimos se realizados o Primeiro Encontro com os pequenos mestres da nossa cultura e o Priumeiro Encontro de Coquistas da Mata Norte.  Também aconteceu um curso de produção de instrumentos musicais. Foram tantas as iniciativas nascidas, construídas e realizadas na nossa Região da Mata Norte por pessoas daqui, por gente que a gente encontra na rua diariamente. Isso mostra que nós continuamos a ser um lugar de criação cultural e que a nossa juventude é uma juventude alegre, cuidadosa, criativa e que está construindo uma região cada vez melhor e mais consciente de si mesma.
Mas precisamos que as nossas escolas, os nossos professores, os líderes de nossas comunidades, os padres, os pastores, os babalorixás, os prefeitos, vereadores, juízes e todas as autoridades da região continuem a alimentar a esperança de nossa juventude, confiando nela e nas suas iniciativas. O verdadeiro doce da Mata Norte é a esperança e a certeza de nossas gerações.
Feliz Ano Novo com muitas realizações em 2001.
Esses são os desejos do Programa Canavial.

Para os dias 31 de dezembro de 2010 e 1º de janeiro de 2011

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dez/10

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 97 

NATAL

 

presepio202

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Nesta semana todos estão festejando o nascimento de uma criança que veio a se revelar, para muitos, como Filho de Deus. Embora a festa do Natal dessa criança que veio a ser conhecida como o nome de Jesus esteja, a cada dia sendo vista como uma festa de consumo de mercadorias, na verdade ela começou a ser celebrada de outras maneiras.

Primeiro essa festa foi celebrada como o Nascimento do Sol, o Sol da Justiça. A criança nasceu em um situação muito “aperreada”, pois, diz a tradição, que por causa de um recenseamento, seus pais tiveram que sair do povoado onde moravam para ir para o lugar onde nasceram: por isso, quando chegou a hora do menino nascer, e como não encontraram casa onde ficar, a criança nasceu numa estrebaria, bem pobre, tomando o lugar dos animais dormir. Mas como toda criança, ela ficou sendo o centro de atração de morava por perto e escutou o choro dela ao nascer. E a criança e sua família, foi visitada por pastores, por ciganos e ciganas; e foi visitada, também por três reis que tinham sabedoria suficiente para entender que a beleza e justiça não se confundem com riqueza e luxo.

Fazer um presépio na praça da cidade, na praça do povoado ou na casa das pessoas para lembrar o nascimento do Menino Deus, foi de um homem, conhecido como Francisco, nascido na cidade de Assis, faz uns 1800 anos.

A festa era muito ligada a religião dos cristãos, como ainda hoje, mas aconteceu que tem ocorrido muitas mudanças e, tem muita gente nos dias de hoje que não gosta muito de dizer que é religiosos e, tem mesmo gente que diz que não acredita que exista algum Deus. Mas o que é interessante nesta festa é que todas as pessoas que tomam conhecimento dela gostam de festejar e, como os Reis Sábios (a palavra mago era usada em lugar de sábio!), os pastores e as ciganas, também levam presentes para dar aos amigos. Assim, o Natal fica como se fosse uma grande festa de amigos e ela dá a sensação de que nós todos fazemos parte de uma só família: a família, a família dos que desejam alegria, felicidade, justiça e harmonia para todos os seres humanos.

Meus amigos, o Programa Canavial deseja a Todos que nos escutam, a todos que não nos escutam, a todos que conhecemos, a todos que não conhecemos, desejamos um Feliz Natal, uma feliz nascimento para a alegria, a justiça e harmonia.

Para os dias 23 e 24 de dezembro de 2010 

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 96

PASTORIL E OUTRAS DANÇAS

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

A cada o Programa Canavial vem apresentando assuntos para as nossas conversas e são sempre a respeito de acontecimentos e criações que nossa região vem criando nos últimos duzentos anos. Essas brincadeiras, essas histórias, essas festas que fazemos a cada ano, e todos os anos, são o retrato da vida que vem sendo vivida nessa nossa terra desde os tempos dos avôs e avós dos nossos avôs e avós. A cada semana nós conversamos sobre a nossa história, a história que eles fizeram e nós herdamos e a história que nós estamos fazendo e que nossos filhos e netos herdarão.

Houve um tempo em que o PASTORIL era um teatro e uma dança comum e que se apresentava quase sempre na frente da Igreja. O Pastoril é parecido com uma peça de teatro na qual os artistas não falam, apenas cantam, e que é conhecida como Ópera. O Pastoril começou a ser dançado, em Portugal, muitos anos antes dos portugueses chegarem ao Brasil.

O Pastoril conta uma viagem que ciganas saem do Egito para se festejar com uma família na qual a mulher acabou de dar a luz a uma criança. Nessa viagem as pastorinhas, que são as ciganas do Egito, passam por muitos lugares; em algumas casas há jardins, e elas e lá encontram borboletas; no caminho fazem amizade com um pastor de ovelhas que as acompanha enquanto elas seguem uma estrela que as guia até a casa onde ocorreu o nascimento do menino que recebeu o nome de Jesus. Todos os nomes têm um significado e o nome Jesus significa “Deus Salva”. Ou seja, a história do pastoril é a história de pessoas que andam até encontrar um motivo para ficar alegres e serem felizes.

Diana e Anjo

Diana e Anjo

A dança-teatro do Pastoril  era apresentada até o dia seis de Janeiro, o dia da Festa dos Reis Magos, que também saíram de suas terras no Oriente para visitar o Menino que nasceu em um ligar muito simples e pobre, uma cocheira, um lugar que serve para proteger os animais.

Meus amigos, na nossa região, nós costumamos celebrar o tempo do Natal com danças como o Pastoril, o Cavalo Marinho, Cirandas, Cocos, e muito Forró. Esse é um período em que descansamos dos trabalhos do corte da cana enquanto a terra parece descansar também. O ritmo da vida dos homens e das mulheres acompanha o ritmo da terra. Eessa época de descanso é o período em que aparecem nossos artistas que cantam, dançam, vestem roupas coloridas e nos divertem como Ciganas, Pastores, Ambrósios, Mateus, Sebastiões, Empata Samba, Capitães Marinho e tantas outras figuras que nos fazem Reis do Oriente que cantam, seguindo a Estrela Guia sob a proteção dos Arcos de São Gonçalo.  

O Programa Canavial deseja parabenizar todos os artistas de nossa região que estão se aprontando para as apresentações nesse final de ano.

Para os dias 17 e 18 de dezembro de 2010.

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dez/10

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Nossa Cultura nas Escolas

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 95

 

Nossa Cultura nas Escolas

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Estamos começando o mês de dezembro e nele acontece a festa de natal. Essa palavra lembra outra, nascimento. A cada mês de dezembro fazemos uma festa para lembrar o nascimento de uma criança que foi apontada como sinal de contradição por trazer alegrias e sofrimentos a muitos. A festa de 25 de dezembro lembra uma criança que nasceu sem uma casa, junto a animais e visitada por gente muito simples, pastores e reis encantados com a tranqüilidade de uma mulher e homem felizes por estarem continuando a obra da criação divina.

Em nossa região da Mata Norte, neste ano, a festa do Menino Jesus parece que vai começando mais cedo. Em Goiana está sendo realizado o Primeiro Encontro Infantil de Cultura Popular da Zona da Mata. Uma das idéias básicas do projeto é debater a relação entre a cultura que as crianças aprendem nos terreiros, quintais, nas salas de suas casas e a cultura que elas aprendem nas escolas que freqüentam. O professor Paulo Freire costumava dizer que quando uma pessoa vai para a escola ela já sabe muita coisa: ela já sabe falar português, sabe o significado de muitas palavras, sabe dançar, carregar água, ajudar a lavar os pratos e muita coisa que aprendeu antes de ir para a escola. Mas acontece que nem sempre as pessoas que trabalham nas escolas não levam esses conhecimentos em consideração, não seguem o ensinamento do professor Paulo Freire que dizia que, a gente, primeiro deve considerar o que é o aluno já sabe para, começar do lugar onde ele está.

Ora, meus amigos, na nossa região muitos meninos já são mestres de algumas brincadeiras, sabem tocar bage, sabem versos do Cavalo Marinho, sabem tocar triângulo, responder ciranda, dançar de caboclo. Tem até deles que são poliglotas, ou seja, falam outra língua além do português, pois alguns freqüentam terreiros de Xangô ou Jurema e sabem expressões da língua nagô. E esse Primeiro Encontro Infantil de Cultura Popular da Zona da Mata está discutindo como fazer para que a cultura que nós aprendemos de nossos avós e pais, essa cultura que ensinamos a nossos filhos, pode também ser ensinada nas escolas, porque é com ela que o Brasil tem sido construído.

E é assim que o Programa Canavial começa o mês de dezembro, parabenizando o pessoal que, em Goiana, está procurando maneiras de fortalecer a nossa cultura nas escolas freqüentadas por nossas crianças, de maneira que as escolas reconheçam os saberes que os pequenos mestres da cultura aprenderam com os mestres da sabedoria popular.

 

Para os dias 10 e 11 de dezembro de 2010.

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