História e Canavial |

Archive for fevereiro 2011

fev/11

23

Gigantes no Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 106 

GIGANTES NO CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Uma das marcas do carnaval de Pernambuco é uma multidão seguindo uma banda de frevo, uma multidão animada acompanhando um bloco. Em Olinda, cidade cujo nome está virando sinônimo de carnaval, além de seguir as troças Pitombeira dos Quatro Cantos e Elefante de Olinda, a multidão gosta de seguir bonecos gigantes. O mais famoso e mais olindense é o Homem da Meia Noite, que sai de sua casa, que fica no Largo do Bom Sucesso, sempre à meia noite do Sábado de Zé Pereira, desde 1931. O Homem da Meia Noite surgiu porque o marceneiro Benedito Barbaça e o pintor de paredes Luciano Queiroz se desentenderam com a diretoria da troça o Cariri. Desde então o boneco passou a dar início ao carnaval olindense.   

O Homem da Meia Noite e a Mulher do Dia

Até 1967 o elegante boneco vivia solitário na cidade. Naquele ano, Rodolfo Medeiros, Luiz José dos Santos inventaram a Mulher do Dia, cuja face foi modelada pelo artesão Julião das Máscaras. Sete anos depois, o mesmo Julião das Máscaras, a pedido de Edival albino e Ernane Lopes, fez o rosto de um menino e, assim nasceu o Menino da Tarde que já desfila na tarde do sábado, se recolhendo quando chega a noite. Três anos depois nasceu a Menina da Tarde, uma idéia de Dalma Soares confeccionada por Sílvio Botelho. E desde 1980 vem crescendo o número desses gigantes que animam o carnaval de Olinda.

Mas, o primeiro boneco gigante de Pernambuco apareceu na cidade sertaneja de Belém do São Francisco, em 1919. Para dar início ao Carnaval, padre Norberto, o vigário local imaginou um boneco que chegava da Europa pelo Rio São Francisco: era Zé Pereira que vinha se casar com Vitalina. Os primeiros bonecos foram construídos por Gumercindo Pires. E desde então vem sendo acompanhado pela Orquestra Dionnon Pires.

A tradição de bonecos gigantes vem de algumas cidades portuguesas, espanholas e belgas. Depois do Carnaval de Olinda, são muitas as cidades brasileiras que adotaram a idéia de fazer bonecos para guiar os foliões nas ruas da alegria de todos os carnavais. Em nossos carnavais da Mata Norte não temos bonecos gigantes, temos gigantes que se vestem de Caboclos de Lança, Caboclos de Pena, de Catirinas, de Mateus, Burrinhas, Caçadores, Caboclinhos, Pajés, para encher de cores e alegrias as ruas de nossas cidades.

O Programa Canavial convida a todos os folgazões e brincantes a fazer em cada uma de nossas cidades o maior carnaval que a cultura pernambucana pode fazer.

 

Para os dias 25 e 26 de fevereiro 2011

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fev/11

17

As burrinhas de Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 105 

AS BURRINHAS

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Nos dias de carnaval as ruas de nossas cidades ficam bem mais interessantes, pois nelas encontramos o passado delas, o nosso passado desfilando e nos fazendo sonhar e sorrir. Nos dias anteriores ao carnaval, já podemos encontrar crianças batendo lata acompanhando um urso e um caçador, aos gritos de “a La ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”, e, sem saber elas estão contando um tempo dos antepassados europeus, na Idade Média, que caçavam ursos e os levavam à feira para se divertirem. Pois é, nós não temos ursos, mas temos a brincadeira de uma das raízes formadoras da nossa cultura. E tem muito mais coisas que as ruas do carnaval nos ensinam de nossa história. Por exemplo, sabemos que o Maracatu de Baque Solto conta a vida e luta dos nossos antepassados indígenas que se tornaram caboclos para escapar da morte dos que lhes queriam tomar as terras. Por isso eles são guerreiros nessa luta simbólica. Mas no Maracatu Rural, como em outros brinquedos da Zona da Mata  e de outras partes do Brasil, tem um personagem interessante: a burrinha.

Quando passa o Maracatu, na frente vem o Bastião, a Catirina ou Catita e também a burrinha. Eles correm abrindo espaço para o Maracatu, e a Burrinha e com o seu relho põe os curiosos para mais distantes, abrindo espaço para os guerreiros e a tribo passar. A Burrinha é muito importante e está na construção da vida em todo o Brasil.

Uma vez escutei do meu querido Manuel Correia de Andrade, geógrafo que nasceu no engenho Jundiá, em Vicência, que nenhum animal foi mais importante na formação do Brasil que as mulas ou burros.  Eles são animais de forte ‘personalidade’ e difíceis de serem domados, mas são resistentes e por isso sempre foram usados para o transporte de cargas. Na nossa região, até pouco tempo, esses burros eram usados para transportar molhos da cana desde o canavial até os engenhos. Muitos homens trabalharam ao lado desses animais com cambiteiros, mesmos sem serem seus donos, pois elas pertenciam ao senhor de engenho que tomavam muito cuidado para que elas não fossem roubadas. Os caboclos mais velhos sabem da importância dessas burras.

As burras, vez por outra, eles empacavam e por teimosia não saiam do lugar, pois sua personalidade forte exige que sejam respeitadas e gostam de serem tratadas com carinho. Claro que no carnaval feito pelo povo as burrinhas encontraram seu lugar e são muito admiradas pelas crianças que gostam de brincar com elas, mesmo sabendo que elas saem correndo e pondo todo mundo a correr. As burrinhas são alegrias na frente das tribos de caboclos ou quando saem com um grupo tocando bombo, um tarol, um agogô, garrafas ou latas.

Da mesma forma que as burrinhas foram, e ainda são instrumentos dos homens para a construção da riqueza, nos nossos carnavais elas embelezam os dias de carnaval. Nas cidades dos canaviais sempre há algumas burrinhas que a cada ano saem a desfilar nas ruas das cidades. Em Goiana há muitos jovens que formaram grupos de percussão para acompanhar uma Burrinha. Lá a mais famosa burra atualmente é burra de Serginho que segue a tradição de Mestre Miguel e vem se tornando um símbolo do carnaval goianense.

O Programa Canavial nesta semana deseja homenagear todas Burrinhas de Carnaval que animam nossas cidades e fazem correr de susto e alegria as crianças, adocicando nossa existência, ao mesmo tempo que nos lembram as muitas jornadas nos canaviais de nossa terra. Viva as Burrinhas!!!!!

 

Para os programas dos dias18 e 19 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 104

OS BLOCOS DAS VITÓRIAS DE NOSSOS CANAVIAIS

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

A semana passada nós conversamos um pouco sobre a música e a dança que tem um significado especial para os pernambucanos: o frevo. Inventado e crescido nas ruas do Recife, diferentemente do que muitos pensam essa dança e esse ritmo não ficou preso nas ruas da capital. Se um dia alguém for estudar onde o frevo é tocado e dançado em Pernambuco, vai anotar, em seu livro, nomes de cidades de todas as regiões de Pernambuco. É que esse ritmo de liberdade foi sendo espalhado pelo território pernambucano nos trilhos dos trens. Pernambuco inteiro dança o frevo que é uma dança da liberdade republicana, como as principais e mais vivas tradições pernambucanas, como é o caso do Maracatu Rural que vem crescendo em número a cada ano, apesar dos prefeitos e governadores preferirem transferir a renda dos municípios e do estado para as bandas eletrônicas ao invés de apoiarem as orquestras e os clubes da região. É claro que precisamos trazer artistas e bandas de fora para que possamos trocar experiências e ter novos conhecimentos, mas é necessário que haja uma melhor paga aos artistas locais e da região. A globalização não significa apenas receber o que vem de fora, mas é também fortalecer o que temos para poder mostrar o que somos.

Não é segredo para ninguém que “quando o povo decide cair na frevança, não há quem dê jeito, agüenta o rojão, fica sem comer, mas no fim, tá tudo ok” já explicava o grande maestro Nelson Ferreira no frevo-canção O Bloco da Vitória. Quando ele escreveu esses versos estava havendo importantes mudanças na vida social e política do Brasil e essas mudanças terminam por aparecer na criação cultural.

Em 1962, pelo Acordo do Campo, pela primeira vez os cortadores de cana passaram a receber o salário mínimo. Isso quer dizer que os cortadores de cana podiam se libertar do barracão do engenho e da usina. Foi o primeiro acordo assinado entre os trabalhadores e os donos das terras. Era quase um novo treze de maio, pois agora o trabalhador sabia que podia escolher onde e o que comprar. Era a liberdade e o começo de um novo tempo de alegria, embora os problemas continuassem existindo. Mas a alegria fez aparecer muitos blocos no carnaval de 1963. Eram blocos que saiam dos povoados dos engenhos, saiam tocando uma marcha acelerada, com uma caixa, um zabumba e uma sanfona. Era a época das Caravanas que iam de engenho a engenho para alegrar e divertir.  A maior parte desses blocos deixou de existir. Mas em Tracunhaém tem o Bloco Rural Andaluza que foi criado no Engenho dos Abreus no ano de 1963. Ainda sob o comando do Mestre Emeliano, o Bloco Andaluza faz a alegria de Tracunhaém e de outras cidades da Mata Norte.

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

O Programa Canavial desta semana homenageia o Bloco Rural Andaluza nos seus 47 anos de lutas e glórias, ao mesmo tempo em que lembra aos prefeitos e a todos os cidadãos da Zona da Mata Norte que é nossa obrigação apoiar os artistas que fazem a alegria de nossos carnavais.

 

Para os dias 11 e 12 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL

 

O FREVO DE PERNAMBUCO TEM GOSTO DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Nós sabemos que a festa de Carnaval é uma festa de sentido religioso, desde os tempos mais antigos, começou muito tempo antes da existência do Brasil e dos brasileiros. Dizemos que “nós temos o melhor carnaval do mundo”, mas ele não é o mais antigo.

Alguns entendem que no começo foi uma festa para homenagear a fertilidade da terra e por isso se come e se bebe muito nesses dias de fartura, quando uma das principais figuras é o Rei Momo, um gordo sempre contente, risonho, com um copo de bebida em uma mão e um pedaço de carne na outra. O carnaval é um feriado em que a graça é ser diferente do que se é no resto do ano, é um período em que o mundo fica de cabeça para baixo, ou seja, muito diferente, tão diferente que ninguém se preocupa em trabalhar, mas apenas em se divertir. E esse desejo de diversão coletiva é quase uma necessidade depois de um ano de trabalho, sofrimento e seriedade. No carnaval tudo é brincadeira, prazer e alegria. É um período em que cada um pode ser um rei, ou seja, o carnaval é  um período em que todos podem se divertir, comer, beber, cantar e dançar.

E cada um inventa sua maneira de ser rei, ser palhaço, ser menino, ser o que quiser. E dança como quer e inventa dança e inventa música. Um das razões de o carnaval ser tão interessante é que cada um inventa o seu jeito de brincar e de ser feliz. Ninguém tem que imitar outra pessoa para ser reconhecida e apreciada. Por isso é que são criados tantos blocos, tantos clubes, tantas figuras, tantos sons, tantas batucadas, e tantas roupas diferentes. O Carnaval é a festa e o desfile da criatividade, diferente dos desfiles cívicos e das procissões, onde todos se vestem do mesmo jeito e andam e cantam do mesmo modo. No carnaval cada grupo dança como quer.

Em Pernambuco tem muitas maneiras de brincar carnaval, de dançar para mostrar a alegria e a vitalidade. Uma delas é conhecida como FREVO, uma maneira de dançar que foi sendo criada nas ruas estreitas do Recife desde o final do século XIX, mas que tomou esse nome no início do século XX. É uma dança guerreira, de homens e mulheres ocupando os espaços das ruas, acompanhando as bandas de música que tocavam dobrados militares, mas quando eram contratados para acompanhar os grupos de trabalhadores no período do carnaval, tocavam em compassos mais rápidos, fazendo com que as pessoas que escutavam a música inventassem maneiras de acompanhar a música com o movimento de seus corpos. A música ajudava a aquecer os corpos dos que seguiam a orquestra e todos como que sentiam o sangue ferver, ou “frever”. Assim é que no dia doze de fevereiro de 1907 apareceu a palavra frevo em um jornal do Recife, o Jornal Pequeno. Nesta semana se festeja o dia do Frevo, a música e dança do nosso carnaval, uma dança que depende da criação de cada dançante. E tem sido na Mata Norte de Pernambuco que se formaram grandes maestros de orquestra de frevo, os maiores arranjadores de nossa música como é o caso do Maestro Duda, nascido em Goiana, tendo estudado na Saboeira; o Maestro José Menezes, nascido em Nazaré da Mata;o Maestro Nunes, natural de Vicência.

Nesta semana, o PROGRAMA CANAVIAL deseja que os dirigentes de nossas cidades voltem a apoiar as nossas orquestras para que floresçam novos maestros em nossas bandas.

   

Para os dias 4 e 5 de fevereiro de 2012.

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