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mar/11

25

Premiação que prejudica

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 110

PREMIAÇÃO QUE PREJUDICA

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos

            No começo do século passado, quando ainda havia muitos engenhos e bem mais sítios do que nos dias de hoje, na época do carnaval alguns homens começaram a se divertir saindo para brincar vestidos com roupas de suas mulheres: eram os cambindas; na mesma época outros homens começaram a vestir-se como índios caboclos e desfilavam nos sítios. No começo saiam sozinhos, iam de casa em casa pedindo ajuda e, logo começaram a se reunir e foram criando essa brincadeira bonita, com os caboclos seguindo e protegendo a bandeira de sua nação; assim é que se formou o Maracatu Rural, conhecido como Maracatu de Caboclo, ou Maracatu de Baque Solto. Como eles eram de sítios diferentes, às vezes quando os caboclos se encontravam podiam brigar e, muitas vezes um maracatu queria derrubar a bandeira do outro e, dizem que a briga era feia! Essa situação fez muito gente ficar com medo dos caboclos e dos maracatus que desfilavam com suas roupas coloridas, uma manta que cobria o surrão com uns chocalhos que fazia barulho cada vez que o caboclo dava um passo. O Maracatu quando vinha era bonita, mas dava muito medo por causa da violência. Uma violência causada pela disputa que fazia inimigos.

            Depois da metade dos anos de 1980, três mestres donos de maracatu: Mestre Batista, Mestre Hermenegildo e Mestre Salustiano compreenderam que a brincadeira do maracatu não crescia, não aumentava por causa das disputas entre eles, por causa da violência, então decidiram que deviam fazer alguma coisa para que os caboclos crescessem e o povo passasse a gostar mais de ver o maracatu passar. Batista, Hermenegildo e Salustiano então conversaram com outros donos de maracatu e fundaram a Associação dos maracatus de Baque Solto de Pernambuco.

Para ser sócio dessa sociedade os maracatus tiveram que se comprometer de não mais querer derrubar a bandeira do outro, não mais provocar briga. Começaram com 13 maracatus e, agora que não tem mais briga, são mais de cem, e a cada ano tem mais gente assistindo o desfile e mais rapazes e moças querendo entrar  na brincadeira para ser caboclo, para ser baiana, desfilar com o seu maracatu preferido.

Mas agora tem outro problema que precisa ser resolvido. A Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco teve um papel muito importante na superação da violência e na aceitação do maracatu por todo o povo de Pernambuco. Mas, o desfile que é promovido pela Prefeitura do Recife, que é um vitrine muito importante, pode prejudicar a brincadeira do Maracatu de Baque Solto com esse negócio de premiar o maracatu que ficar mais parecido com a corte do rei da França, usando cabeleira de nobre, sapato alto e pálio – esses guarda sol que protege o rei e a rainha – obrigando o pessoal pobre da Zona da Mata Norte investir muito dinheiro para sair na avenida e ser julgado como se fosse uma escola de samba do Rio de Janeiro. Tem gente que é convidada a ser jurado e nunca viu de perto um maracatu. Isso começa a criar problemas entre os maracatuzeiros e insatisfação entre os caboclos. É chegado o momento da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco dizer aos organizadores que o maracatu de baque solto é uma criação do povo da mata e precisa ser admirado como criação do povo.

            Meus amigos, o Programa Canavial começa, a partir desta semana, chamar todos os donos e mestres de maracatus para dizer que o Recife, como as outras prefeituras pode e deve ajudar a manifestação cultural que orgulha Pernambuco, mas deve parar de incentivar a disputa que os gloriosos mestres Batista, Salustiano e Hermenegildo organizaram e fortaleceram.

Para o dia 26 de março de 11

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mar/11

10

NOSSO CARNAVAL

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 108

NOSSO CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Passaram os três dias de carnaval e brincamos em todas as nossas cidades: o Zé Pereira alegrou a noite do sábado em Vicência que, na terça feira, dia 8, fez um belo desfile homenageando as mulheres no seu Dia Internacional. Aliança fez as honras à dona Ma ria Janira da Silva, uma das mais antigas animadoras do carnaval da cidade e, como sede da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco promoveu um belo carnaval. Goiana, com seus caboclinhos, as Pretinhas – do Baldo do Rio e de Carne de Vaca -, Maracatus teve a alegria de ver as orquestras retornarem às ruas acompanhando blocos como o As Insaciáveis. Timbaúba mais uma vez colocou os Bois no belo desfile que acontece todos os anos. Palcos com artistas locais e com convidados marcaram todas as nossas cidades.

Nazaré da Mata promoveu um dos mais belos carnavais com o tradicional Encontro de Maracatus, na sua 13ª terceira edição e seus blocos. O palco da catedral recebeu artistas locais e outros que visitaram a cidade. Momento especial foi Elba Ramalho louvando a Senhora de Nazaré com toda Praça da Catedral a cantar com ela. E a Praça Herculano Bandeira passou a ser chamada de Praça do Frevo, com as orquestras Pau de Corda, Capa Bode, Revoltosa mantinham a tradição de ouvir, cantar e dançar o passo, enquanto recebiam orquestra como a Orquestra Popular do Recife, liderada pelo Maestro Formiga.

Fizemos um lindo carnaval, fonte de alegria para os muitos turistas que visitaram nossas cidades, e de estudos para pesquisadores que se surpreendem com a vitalidade de nossas tradições.

O Programa Canavial a todos parabeniza e tem certeza que no próximo teremos mais e, nossas prefeituras estarão mais atentas para receber mais turistas, mais visitantes, mais foliões.  

 

Para os dias 11 e 12 de Março de 2011.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 107

A CAÇADA DO BODE E A GLÓRIA DA VIDA

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Estamos na Semana Gorda – Sexta feira Gorda, Sábado de Zé Pereira, Domingo de Carnaval, Segunda Feira Gorda, Terça Feira Gorda, Quarta Feira Ingrata: é a semana do carnaval. Houve um tempo que era apenas três dias essa semana. “carnaval só tem três dias, foi os anjos que criou”, diz um frevo canção orquestrado por Nelson Ferreira. Hoje são muitos dias, pois vivemos em uma sociedade festiva na qual o trabalho é apenas uma atividade a mais enquanto se vive em busca do divertimento e dos espetáculos. E o carnaval parece ser apenas mais uma festa onde as pessoas cantam, bebem, dançam, se alegram e fazem o que normalmente não é feito. Mas não foi assim em todas as sociedades e, no Brasil, uma que é formada por muitas culturas o carnaval, para alguns brasileiros, não é assim. O carnaval é uma celebração às forças divinas.

As mais antigas festas do que chamamos carnaval era uma celebração em homenagem à deusa da primavera, a que traz a força da vida, a fertilidade da terra, a terra que nos alimenta com sua vegetação, suas aves e animais que sempre foram objeto de caça para a alimentação das tribos.

Capivara

Capivara

Meus amigos, muito antes desta nossa terra ser conhecida pelos europeus, muito antes de aqui chegarem os povos trazidos da África, aqui havia muitos povos, nações que estão hoje esquecidas e que falavam línguas diferentes da que falamos hoje, mas interessante é que nós ainda falamos as palavras que eles criaram, mesmo de maneira modificada. Pois veja como somos esses povos que não nos dizem, por isso falamos as palavras de antigamente. Os portugueses chegaram aqui em Igaraçu, ou seja, Canoa grande; eu tenho amigos que moram em Areia Branca, que é o sentido da palavra  Itaquitinga; outros amigos moram em Lagoa que Secou, quero dizer Upatininga; e o Mestre Batista, fundador do Maracatu Estrela de Ouro está enterrado na Casa de Tupá, que é Tupaoca. Mais perto do mar fica a Pedra que canta, que é o significado de Itamaracá, e para chegar lá eu preciso passar por Pedra Negra, ou seja, Itapissuma. A gente poderia continuar mostrando como a gente fala a língua dos nossos antepassados, mas como é tempo de carnaval, vamos conversar sobre a Caçada do Bode.bode

Como é sabido por todos, os povos que nossos antepassados viviam da caça e da pesca. O que eles caçavam era as capivaras, as antas, as cutias, os tatus, os veados, os jacus e muitos outros animais. Um dos preferidos era o veado. Hoje, como não há mais veados nas matas, as tribos de índios e caboclinhos que saem no carnaval, passam a noite do sábado em vigília e, na madrugada do domingo saem para a caça, e caçam um ou vários bodes que serão sacrificados para fazer a alimentação de todos da tribo que saem durante os três dias de carnaval. Depois do carnaval, na quarta feira, esses animais que foram mortos servem de alimento para toda a tribo que lutou durante os três dias para a glória da tribo. O carnaval, que parece ser uma guerra para conquistar as ruas e as cidades, termina na quarta feira com um grande banquete com muita comida resultante da caça do bode, um animal que simboliza muitas coisas, inclusive a caça que nossos antepassados faziam pata garantir a sobrevivência de toda a tribo.  

Meus amigos, essa tradição de nossos mais antigos antepassados é mantida em Goiana, na madrugada do domingo de carnaval pela Tribo Índio Tabajara, pela tribo União Sete Flexas de Goiana, pela Tribo Caboclinho Canidé.

caboclinho de Goiana - PE

caboclinho de Goiana - PE

Nós, do PROGRAMA CANAVIAL desejamos uma boa caçada às nossas tribos de índios e de caboclinhos; desejamos também que a felicidade dessa caça coletiva seja sinal da benção que a mãe natureza, com a Jurema Sagrada, o Espírito Santo, Oxóssi e a força de vontade de todos os homens e mulheres façam, do nosso carnaval uma eterna saudação à Vida.

 

 

Para os dias 4 e 5 de março de 2011

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fev/11

23

Gigantes no Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 106 

GIGANTES NO CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Uma das marcas do carnaval de Pernambuco é uma multidão seguindo uma banda de frevo, uma multidão animada acompanhando um bloco. Em Olinda, cidade cujo nome está virando sinônimo de carnaval, além de seguir as troças Pitombeira dos Quatro Cantos e Elefante de Olinda, a multidão gosta de seguir bonecos gigantes. O mais famoso e mais olindense é o Homem da Meia Noite, que sai de sua casa, que fica no Largo do Bom Sucesso, sempre à meia noite do Sábado de Zé Pereira, desde 1931. O Homem da Meia Noite surgiu porque o marceneiro Benedito Barbaça e o pintor de paredes Luciano Queiroz se desentenderam com a diretoria da troça o Cariri. Desde então o boneco passou a dar início ao carnaval olindense.   

O Homem da Meia Noite e a Mulher do Dia

Até 1967 o elegante boneco vivia solitário na cidade. Naquele ano, Rodolfo Medeiros, Luiz José dos Santos inventaram a Mulher do Dia, cuja face foi modelada pelo artesão Julião das Máscaras. Sete anos depois, o mesmo Julião das Máscaras, a pedido de Edival albino e Ernane Lopes, fez o rosto de um menino e, assim nasceu o Menino da Tarde que já desfila na tarde do sábado, se recolhendo quando chega a noite. Três anos depois nasceu a Menina da Tarde, uma idéia de Dalma Soares confeccionada por Sílvio Botelho. E desde 1980 vem crescendo o número desses gigantes que animam o carnaval de Olinda.

Mas, o primeiro boneco gigante de Pernambuco apareceu na cidade sertaneja de Belém do São Francisco, em 1919. Para dar início ao Carnaval, padre Norberto, o vigário local imaginou um boneco que chegava da Europa pelo Rio São Francisco: era Zé Pereira que vinha se casar com Vitalina. Os primeiros bonecos foram construídos por Gumercindo Pires. E desde então vem sendo acompanhado pela Orquestra Dionnon Pires.

A tradição de bonecos gigantes vem de algumas cidades portuguesas, espanholas e belgas. Depois do Carnaval de Olinda, são muitas as cidades brasileiras que adotaram a idéia de fazer bonecos para guiar os foliões nas ruas da alegria de todos os carnavais. Em nossos carnavais da Mata Norte não temos bonecos gigantes, temos gigantes que se vestem de Caboclos de Lança, Caboclos de Pena, de Catirinas, de Mateus, Burrinhas, Caçadores, Caboclinhos, Pajés, para encher de cores e alegrias as ruas de nossas cidades.

O Programa Canavial convida a todos os folgazões e brincantes a fazer em cada uma de nossas cidades o maior carnaval que a cultura pernambucana pode fazer.

 

Para os dias 25 e 26 de fevereiro 2011

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fev/11

17

As burrinhas de Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 105 

AS BURRINHAS

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Nos dias de carnaval as ruas de nossas cidades ficam bem mais interessantes, pois nelas encontramos o passado delas, o nosso passado desfilando e nos fazendo sonhar e sorrir. Nos dias anteriores ao carnaval, já podemos encontrar crianças batendo lata acompanhando um urso e um caçador, aos gritos de “a La ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”, e, sem saber elas estão contando um tempo dos antepassados europeus, na Idade Média, que caçavam ursos e os levavam à feira para se divertirem. Pois é, nós não temos ursos, mas temos a brincadeira de uma das raízes formadoras da nossa cultura. E tem muito mais coisas que as ruas do carnaval nos ensinam de nossa história. Por exemplo, sabemos que o Maracatu de Baque Solto conta a vida e luta dos nossos antepassados indígenas que se tornaram caboclos para escapar da morte dos que lhes queriam tomar as terras. Por isso eles são guerreiros nessa luta simbólica. Mas no Maracatu Rural, como em outros brinquedos da Zona da Mata  e de outras partes do Brasil, tem um personagem interessante: a burrinha.

Quando passa o Maracatu, na frente vem o Bastião, a Catirina ou Catita e também a burrinha. Eles correm abrindo espaço para o Maracatu, e a Burrinha e com o seu relho põe os curiosos para mais distantes, abrindo espaço para os guerreiros e a tribo passar. A Burrinha é muito importante e está na construção da vida em todo o Brasil.

Uma vez escutei do meu querido Manuel Correia de Andrade, geógrafo que nasceu no engenho Jundiá, em Vicência, que nenhum animal foi mais importante na formação do Brasil que as mulas ou burros.  Eles são animais de forte ‘personalidade’ e difíceis de serem domados, mas são resistentes e por isso sempre foram usados para o transporte de cargas. Na nossa região, até pouco tempo, esses burros eram usados para transportar molhos da cana desde o canavial até os engenhos. Muitos homens trabalharam ao lado desses animais com cambiteiros, mesmos sem serem seus donos, pois elas pertenciam ao senhor de engenho que tomavam muito cuidado para que elas não fossem roubadas. Os caboclos mais velhos sabem da importância dessas burras.

As burras, vez por outra, eles empacavam e por teimosia não saiam do lugar, pois sua personalidade forte exige que sejam respeitadas e gostam de serem tratadas com carinho. Claro que no carnaval feito pelo povo as burrinhas encontraram seu lugar e são muito admiradas pelas crianças que gostam de brincar com elas, mesmo sabendo que elas saem correndo e pondo todo mundo a correr. As burrinhas são alegrias na frente das tribos de caboclos ou quando saem com um grupo tocando bombo, um tarol, um agogô, garrafas ou latas.

Da mesma forma que as burrinhas foram, e ainda são instrumentos dos homens para a construção da riqueza, nos nossos carnavais elas embelezam os dias de carnaval. Nas cidades dos canaviais sempre há algumas burrinhas que a cada ano saem a desfilar nas ruas das cidades. Em Goiana há muitos jovens que formaram grupos de percussão para acompanhar uma Burrinha. Lá a mais famosa burra atualmente é burra de Serginho que segue a tradição de Mestre Miguel e vem se tornando um símbolo do carnaval goianense.

O Programa Canavial nesta semana deseja homenagear todas Burrinhas de Carnaval que animam nossas cidades e fazem correr de susto e alegria as crianças, adocicando nossa existência, ao mesmo tempo que nos lembram as muitas jornadas nos canaviais de nossa terra. Viva as Burrinhas!!!!!

 

Para os programas dos dias18 e 19 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 104

OS BLOCOS DAS VITÓRIAS DE NOSSOS CANAVIAIS

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

A semana passada nós conversamos um pouco sobre a música e a dança que tem um significado especial para os pernambucanos: o frevo. Inventado e crescido nas ruas do Recife, diferentemente do que muitos pensam essa dança e esse ritmo não ficou preso nas ruas da capital. Se um dia alguém for estudar onde o frevo é tocado e dançado em Pernambuco, vai anotar, em seu livro, nomes de cidades de todas as regiões de Pernambuco. É que esse ritmo de liberdade foi sendo espalhado pelo território pernambucano nos trilhos dos trens. Pernambuco inteiro dança o frevo que é uma dança da liberdade republicana, como as principais e mais vivas tradições pernambucanas, como é o caso do Maracatu Rural que vem crescendo em número a cada ano, apesar dos prefeitos e governadores preferirem transferir a renda dos municípios e do estado para as bandas eletrônicas ao invés de apoiarem as orquestras e os clubes da região. É claro que precisamos trazer artistas e bandas de fora para que possamos trocar experiências e ter novos conhecimentos, mas é necessário que haja uma melhor paga aos artistas locais e da região. A globalização não significa apenas receber o que vem de fora, mas é também fortalecer o que temos para poder mostrar o que somos.

Não é segredo para ninguém que “quando o povo decide cair na frevança, não há quem dê jeito, agüenta o rojão, fica sem comer, mas no fim, tá tudo ok” já explicava o grande maestro Nelson Ferreira no frevo-canção O Bloco da Vitória. Quando ele escreveu esses versos estava havendo importantes mudanças na vida social e política do Brasil e essas mudanças terminam por aparecer na criação cultural.

Em 1962, pelo Acordo do Campo, pela primeira vez os cortadores de cana passaram a receber o salário mínimo. Isso quer dizer que os cortadores de cana podiam se libertar do barracão do engenho e da usina. Foi o primeiro acordo assinado entre os trabalhadores e os donos das terras. Era quase um novo treze de maio, pois agora o trabalhador sabia que podia escolher onde e o que comprar. Era a liberdade e o começo de um novo tempo de alegria, embora os problemas continuassem existindo. Mas a alegria fez aparecer muitos blocos no carnaval de 1963. Eram blocos que saiam dos povoados dos engenhos, saiam tocando uma marcha acelerada, com uma caixa, um zabumba e uma sanfona. Era a época das Caravanas que iam de engenho a engenho para alegrar e divertir.  A maior parte desses blocos deixou de existir. Mas em Tracunhaém tem o Bloco Rural Andaluza que foi criado no Engenho dos Abreus no ano de 1963. Ainda sob o comando do Mestre Emeliano, o Bloco Andaluza faz a alegria de Tracunhaém e de outras cidades da Mata Norte.

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

Bloco Rural Andaluza de Tracunhaém - foto de Gilson do Turismo

O Programa Canavial desta semana homenageia o Bloco Rural Andaluza nos seus 47 anos de lutas e glórias, ao mesmo tempo em que lembra aos prefeitos e a todos os cidadãos da Zona da Mata Norte que é nossa obrigação apoiar os artistas que fazem a alegria de nossos carnavais.

 

Para os dias 11 e 12 de fevereiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL

 

O FREVO DE PERNAMBUCO TEM GOSTO DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Nós sabemos que a festa de Carnaval é uma festa de sentido religioso, desde os tempos mais antigos, começou muito tempo antes da existência do Brasil e dos brasileiros. Dizemos que “nós temos o melhor carnaval do mundo”, mas ele não é o mais antigo.

Alguns entendem que no começo foi uma festa para homenagear a fertilidade da terra e por isso se come e se bebe muito nesses dias de fartura, quando uma das principais figuras é o Rei Momo, um gordo sempre contente, risonho, com um copo de bebida em uma mão e um pedaço de carne na outra. O carnaval é um feriado em que a graça é ser diferente do que se é no resto do ano, é um período em que o mundo fica de cabeça para baixo, ou seja, muito diferente, tão diferente que ninguém se preocupa em trabalhar, mas apenas em se divertir. E esse desejo de diversão coletiva é quase uma necessidade depois de um ano de trabalho, sofrimento e seriedade. No carnaval tudo é brincadeira, prazer e alegria. É um período em que cada um pode ser um rei, ou seja, o carnaval é  um período em que todos podem se divertir, comer, beber, cantar e dançar.

E cada um inventa sua maneira de ser rei, ser palhaço, ser menino, ser o que quiser. E dança como quer e inventa dança e inventa música. Um das razões de o carnaval ser tão interessante é que cada um inventa o seu jeito de brincar e de ser feliz. Ninguém tem que imitar outra pessoa para ser reconhecida e apreciada. Por isso é que são criados tantos blocos, tantos clubes, tantas figuras, tantos sons, tantas batucadas, e tantas roupas diferentes. O Carnaval é a festa e o desfile da criatividade, diferente dos desfiles cívicos e das procissões, onde todos se vestem do mesmo jeito e andam e cantam do mesmo modo. No carnaval cada grupo dança como quer.

Em Pernambuco tem muitas maneiras de brincar carnaval, de dançar para mostrar a alegria e a vitalidade. Uma delas é conhecida como FREVO, uma maneira de dançar que foi sendo criada nas ruas estreitas do Recife desde o final do século XIX, mas que tomou esse nome no início do século XX. É uma dança guerreira, de homens e mulheres ocupando os espaços das ruas, acompanhando as bandas de música que tocavam dobrados militares, mas quando eram contratados para acompanhar os grupos de trabalhadores no período do carnaval, tocavam em compassos mais rápidos, fazendo com que as pessoas que escutavam a música inventassem maneiras de acompanhar a música com o movimento de seus corpos. A música ajudava a aquecer os corpos dos que seguiam a orquestra e todos como que sentiam o sangue ferver, ou “frever”. Assim é que no dia doze de fevereiro de 1907 apareceu a palavra frevo em um jornal do Recife, o Jornal Pequeno. Nesta semana se festeja o dia do Frevo, a música e dança do nosso carnaval, uma dança que depende da criação de cada dançante. E tem sido na Mata Norte de Pernambuco que se formaram grandes maestros de orquestra de frevo, os maiores arranjadores de nossa música como é o caso do Maestro Duda, nascido em Goiana, tendo estudado na Saboeira; o Maestro José Menezes, nascido em Nazaré da Mata;o Maestro Nunes, natural de Vicência.

Nesta semana, o PROGRAMA CANAVIAL deseja que os dirigentes de nossas cidades voltem a apoiar as nossas orquestras para que floresçam novos maestros em nossas bandas.

   

Para os dias 4 e 5 de fevereiro de 2012.

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jan/11

27

PREPARANDO O CARNAVAL

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL

PREPARANDO O CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos

 

Estamos chegando ao final de janeiro e nos aproximando do período de preparação para a maior festa popular, a festa que põe o mundo de cabeça para baixo, a festa que faz a gente viver os mais estranhos sonhos, os sonhos em que os homens e mulheres mais pobres saem para a rua com o orgulho de serem chefes de tribos, nações, príncipes, princesas. O Carnaval é a festa que os deixa imaginar e viver o mundo em que a gente se sente importante.

O Carnaval é uma criação de todos, dos pobres, principalmente, e dos ricos. O Carnaval é uma festa em que todos podem participar, porque ela acontece na rua e não precisa de muita coisa. Faz uns cento e cinqüenta anos que os bailes de carnaval aconteciam apenas nos clubes e os pobres que ali entravam era apenas para trabalhar. Mas aí, quando foi acabando a escravidão no Brasil, os homens e as mulheres livres, muitos deles ex-escravos, começaram a sair para brincar nas ruas como a imaginação permitia. Uma coisa que ajudou muito a invenção do Carnaval no Brasil foi o fato que as pessoas que tocavam nas bandas que acompanhavam as procissões eram pobres, antigos escravos ou filhos de escravos. Os músicos que tocavam acompanhando as procissões, também tocavam nas bandas militares e começaram a acompanhar as pessoas que formaram alguns blocos para sair nas ruas durante os dias de carnaval. E o interessante é que muitos dos primeiros blocos eram organizados de acordo com a profissão ou o ofício das pessoas. O Clube Vassourinhas, tanto no Recife quanto em Olinda era o clube das pessoas que varriam as ruas; havia o Clube dos Lenhadores, cujo nome indica a profissão, e assim muitos outros. Na nossa região da Mata Norte, começou a aparecer grupos de índios, como a Tribo Cahetés, ainda em 1904. Por esse período, muitos homens dos sítios, sujavam a cara com carvão saiam vestidos de com as roupas de suas mulheres e viravam Catirinas e saiam de Jereré e ficaram conhecidos como Cambindas, talvez porque bebiam cachaça e tiravam o gosto da branquinha com essa piaba que a gente compra seca nas feiras de nossas cidades. Outros se vestiam de índios e viravam caboclos com suas lanças, fazia medo a muita gente. Assim foi nascendo o nosso carnaval, o Maracatu de Baque Solto.

O nosso carnaval deve ser preparado pelos nossos prefeitos e secretários cuidando para que todas as nossas tradições sejam respeitadas, tanto as mais novas, muitas que chegam só para ficar algumas horas, quanto as que são criadas pela imaginação da gente.

Meus amigos, o Programa Canavial deseja que as Sambadas dos nossos maracatus aconteçam com  muita alegria na preparação do nosso carnaval.

 

Para os dias 28 e 29 de janeiro de 2011

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