História e Canavial |

TAG | Maracatu

mar/11

25

Premiação que prejudica

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 110

PREMIAÇÃO QUE PREJUDICA

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos

            No começo do século passado, quando ainda havia muitos engenhos e bem mais sítios do que nos dias de hoje, na época do carnaval alguns homens começaram a se divertir saindo para brincar vestidos com roupas de suas mulheres: eram os cambindas; na mesma época outros homens começaram a vestir-se como índios caboclos e desfilavam nos sítios. No começo saiam sozinhos, iam de casa em casa pedindo ajuda e, logo começaram a se reunir e foram criando essa brincadeira bonita, com os caboclos seguindo e protegendo a bandeira de sua nação; assim é que se formou o Maracatu Rural, conhecido como Maracatu de Caboclo, ou Maracatu de Baque Solto. Como eles eram de sítios diferentes, às vezes quando os caboclos se encontravam podiam brigar e, muitas vezes um maracatu queria derrubar a bandeira do outro e, dizem que a briga era feia! Essa situação fez muito gente ficar com medo dos caboclos e dos maracatus que desfilavam com suas roupas coloridas, uma manta que cobria o surrão com uns chocalhos que fazia barulho cada vez que o caboclo dava um passo. O Maracatu quando vinha era bonita, mas dava muito medo por causa da violência. Uma violência causada pela disputa que fazia inimigos.

            Depois da metade dos anos de 1980, três mestres donos de maracatu: Mestre Batista, Mestre Hermenegildo e Mestre Salustiano compreenderam que a brincadeira do maracatu não crescia, não aumentava por causa das disputas entre eles, por causa da violência, então decidiram que deviam fazer alguma coisa para que os caboclos crescessem e o povo passasse a gostar mais de ver o maracatu passar. Batista, Hermenegildo e Salustiano então conversaram com outros donos de maracatu e fundaram a Associação dos maracatus de Baque Solto de Pernambuco.

Para ser sócio dessa sociedade os maracatus tiveram que se comprometer de não mais querer derrubar a bandeira do outro, não mais provocar briga. Começaram com 13 maracatus e, agora que não tem mais briga, são mais de cem, e a cada ano tem mais gente assistindo o desfile e mais rapazes e moças querendo entrar  na brincadeira para ser caboclo, para ser baiana, desfilar com o seu maracatu preferido.

Mas agora tem outro problema que precisa ser resolvido. A Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco teve um papel muito importante na superação da violência e na aceitação do maracatu por todo o povo de Pernambuco. Mas, o desfile que é promovido pela Prefeitura do Recife, que é um vitrine muito importante, pode prejudicar a brincadeira do Maracatu de Baque Solto com esse negócio de premiar o maracatu que ficar mais parecido com a corte do rei da França, usando cabeleira de nobre, sapato alto e pálio – esses guarda sol que protege o rei e a rainha – obrigando o pessoal pobre da Zona da Mata Norte investir muito dinheiro para sair na avenida e ser julgado como se fosse uma escola de samba do Rio de Janeiro. Tem gente que é convidada a ser jurado e nunca viu de perto um maracatu. Isso começa a criar problemas entre os maracatuzeiros e insatisfação entre os caboclos. É chegado o momento da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco dizer aos organizadores que o maracatu de baque solto é uma criação do povo da mata e precisa ser admirado como criação do povo.

            Meus amigos, o Programa Canavial começa, a partir desta semana, chamar todos os donos e mestres de maracatus para dizer que o Recife, como as outras prefeituras pode e deve ajudar a manifestação cultural que orgulha Pernambuco, mas deve parar de incentivar a disputa que os gloriosos mestres Batista, Salustiano e Hermenegildo organizaram e fortaleceram.

Para o dia 26 de março de 11

· · · · ·

Theme Design by devolux.nh2.me