História e Canavial |

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mai/11

14

Maio, mês da mãe natureza

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 114

MAIO, MÊS DA MÃE NATUREZA

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Estamos em meados de maio, antigamente denominado mês das noivas, época em eram realizados muitos casamentos. Aos poucos o mês foi sendo tomado pelo comércio destinado às mães, o que não o deixou muito distante das noivas. Nos últimos anos tem se verificado que vem se apresentando como o mês de chuvas que estão a provocar enchentes nos rios de nossa região, pondo muitas famílias em desamparo. Esse fato tem nos levado a pensar sobre a ocupação das margens dos rios, e a necessidade de refazer as matas necessárias ao lado das correntes. Devemos proteger o nosso ambiente, pois assim estamos nos protegendo.

Como no ano passado, algumas populações de Vicência, São Lourenço da Mata, Paudalho, Nazaré da Mata, Aliança, Goiana, entre outros municípios da Mata Norte foram afetadas pelo aumento do volume dos rios. Se prestarmos atenção aos mapas do início do século, ou mesmo em fotografias dos anos cinqüenta do século passado, notaremos que algumas dessas populações construíram suas casas onde antes era o leito dos rios Capibaribe, Tracunhaém, Siriji, Capibaribe Mirim. Essas construções só foram possíveis depois da construção de barragens que acumulam águas necessárias para o abastecimento das cidades e que, por outro lado, serviram para controlar o volume dos rios em época de grandes chuvas. Essas boas ações não foram complementadas por outras como: organização de serviço de esgotamento sanitário, proteção dos leitos dos rios contra a invasão e construção irregular de residências, essas que agora foram atingidas pelas enchentes.

Meus amigos, não basta fazer campanha para que os pobres não construam no antigo leito dos rios – um dia os rios voltam – , é necessário que os governantes das cidades assuma a responsabilidade de contrariar os interesses imediatos, seus e de seus eleitores, e  esclareça que a natureza não se recompõe sozinha, como também não se modificou isoladamente desde que os seres humanos passaram a ter domínio sobre ela. O PROGRAMA CANAVIAL nesta semana quer chamar atenção para o fato de que é necessário a todos os dirigentes municipais, e é necessário a todos os munícipes, assumirem a responsabilidade de preservar o ambiente onde vivemos, é necessário preservar as margens dos nossos rios, e isso se faz de muitas maneiras. Uma delas é não jogar lixo nas ruas, outra maneira é recolher diariamente o lixo, evitando que as águas das chuvas o leve para os rios.

Maio é o mês das noivas, maio é o mês das mães. O PROGRAMA CANAVIAL deseja a todas as noivas, e a seus noivos, muitas alegrias; da mesma maneira deseja que todas as mães estejam livres de ver o sofrimento de seus filhos em necessidade. E o PROGRAMA CANAVIAL lembra que todos nós somos filhos da mãe natureza e cabe a nós cuidar para que ela não sofra com agressões desnecessárias. Vamos cuidar de nossos rios: estudando a sua história, aprendendo como eles vivem e nos ajudam a viver, e cuidando para que eles fiquem limpos cuidando para que nossas ruas não estejam sujas dos restos de nossas comidas e farras.

 

Para os programas do dia 14 de maio de 2011.

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mai/11

7

Cheias e histórias

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 113

CHEIAS E HISTÓRIAS 

 

Severino Vicente da Silva

Caros Amigos

 

Vez por outra os rios enchem, revolvem a terra enriquecendo o solo para o plantio nas várzeas, espaços que ficam às suas margens. Com as águas aumentadas pelas chuvas, o manso filete que dá origem ao grande rio é enriquecido pelas águas de muitos riachos que, não poucas vezes, passam a maior parte do ano sem serem notados, pois estão secos. As cheias dos rios são a vida em movimento, um tipo de arado natural que também é redistribuidor de sais minerais e outros alimentos para as plantações. Milhares de anos atrás, as enchentes do Rio Nilo traziam grande sofrimento aos homens e mulheres que vivam entre o rio e o deserto, mas, foi por causa das enchentes que surgiu uma das mais antigas civilizações. Nas nossas escolas os professores nos ensinam que foi a partir do esforço coletivo para conhecer os ritmo das águas e compreender o movimento das águas que se formou a civilização do Egito. Mas as enchentes dos rios de Pernambuco somente nos fazem medo, não são estudadas nas escolas. Aliás, as escolas só se preocupam com as enchentes dos rios porque os desabrigados ficam morando nos prédios durante algum tempo.

 O Baldo do Rio em Goiana - Foto de Phillippe Wolney

O Baldo do Rio em Goiana - Foto de Phillippe Wolney

Este ano, mais uma vez os maiores rios pernambucanos: Tracunhaém, Capibaribe, Capibaribe Mirim, Siriji, Ipojuca, Una, mais uma vez encheram, pois as chuvas alimentaram os córregos e os riachos que correm para os rios e, com as barragens cheias, as águas seguiram seus cursos e encontraram muitas casas nos lugares onde antes havia o leito dos rios.

Meus amigos, as cheias dos rios da zona dos canaviais têm muitas histórias. Quando menino eu escutei muitas, vou dizer uma delas. Não sei quem contou, mas ela pode nos ensinar muitas coisas.

- Dizem que antigamente havia um Senhor de Engenho que pensava que tinha poder sobre tudo e todos. E resolveu que ia aumentar as terras de cana plantando em lugar que antigamente passava um rio. Mas já fazia tanto tempo que ali não chegava água, ninguém se lembrava mais. Os moradores disseram ao Senhor de Engenho que ela não devia fazer isso que ia perder muito, porque as águas um dia voltarão, se for a vontade de Deus. Mas o homem continuou o seu projeto e até mandou construir uma nova casa para ele, mais perto do rio, porque ele não queria andar tanto para tomar banho no rio.

Alguns anos depois de ele estar instalado em sua casa com a sua família, um dia começou a chover. Era uma chuva forte e o rio foi engrossando e começou a subir foi passando pelo canavial e foi chegando perto da casa. As pessoas da casa foram ficando com medo e queriam ir embora, mas o poderoso Senhor de Engenho disse que Dalí não saía. As águas do rio foram se aproximando da porta enquanto sua mulher suas filhas rezavam diante do oratório pedindo ao santo protetor do engenho fizesse as águas pararem de subir e não alcançassem a sua casa. O dono do engenho que só tinha fé nele mesmo e na sua vontade, de repente entra no quarto onde as mulheres estavam rezando, pega a imagem do santo e vai com ela até a porta da casa, onde o rio estava chegando. E então disse: “pois é seu santo, se água entrar na casa o senhor vai ser o primeiro a morrer”.

Meus amigos, eu não vou dizer como terminou essa história, mas ela ensina que os riachos secos um dia voltam a ter água; ensinam que o limite do rio quem dá é o rio. Os prefeitos não devem consentir que sejam construídas casas no lugar onde costumava passar um rio, os prefeitos não devem permitir que sejam loteadas terras em regiões próximas dos rios. Muito sofrimento que assistimos nas cidades da nossa região é resultado da omissão dos prefeitos de nossas cidades que permitiram que os pobres fossem morar em lugares impróprios. E muitos fizeram isso para ganhar votos dos pobres e apoio dos donos das terras. Na verdade não estavam preocupados com as pessoas que foram morar no lugar do rio passar.

O Programa Canavial pede que os que não foram atingidos pelas cheias ajudem os que estão desabrigados. Mas também sugere que os professores estudem com seus alunos a história do rio que passa em nossa cidade.

Para os programas do dia 7 de maio de 2001.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 112

GOIANA- PERNAMBUCO NAÇÃO CULTURAL

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

A cada ano estamos acompanhando uma tradição que se firma neste início de século: a celebração coletiva de Pernambuco como uma nação cultural, criativamente cultural desde os sertões até o litoral. Temos participado e assistido a execução de um projeto no qual o povo de Pernambuco se mostra e se vê em plena ação criativa, confirmando-se em sua história, com uma maratona de oficinas, de transmissão de saberes de artes tradicionais que trabalham com o barro, a madeira, as palavras, os gestos de danças e teatros, mas também com as novas expressões das artes nascidas da tecnologia contemporânea, tais como a fotografia e o cinema.

Como sempre a seqüência PERNAMBUCO NAÇÃO CULTURAL começa com a Mata Norte, envolvendo os criativos setores das cidades de Goiana, Nazaré da Mata, Aliança, Tracunhaém, Condado, Itaquitinga, Buenos Aires, Glória do Goitá, Carpina, Lagoa do Carro, Ferreiros, Lagoa de Itaenga, Chã de Alegria, Tracunhaém e Paudalho. Essa nova disposição apresenta o dinamismo do Festival Pernambuco Nação Cultural, assumindo que, mesmo quando existe uma cidade-pólo, ela não é capaz de representar sozinha toda a criatividade da região.

Meus amigos, nesta semana segmentos diversos de nossas cidades “matutas” puderam conversar, transmitir, aprender e renovar a cultura pernambucana. Jovens colegiais estiveram em oficinas com artistas consagrados, viram como se faz o milagre do barro tornar-se sentimento – mais que isso: participaram do milagre; conversaram e estabeleceram uma história e se propuseram a contá-la em um minuto, usando as imagens e a linguagem do cinema; outro grupo mostrou mais interesse no mistério das palavras e foi por sonhos em versos e a poesia jorrou. E tivemos exposições de pintura, filmes de ótima qualidade, música agradável aos sentidos e aos espíritos. Poderia continuar a dizer as muitas maravilhas que tivemos a oportunidade de experimentar ao longo desta semana. Uma universidade ao alcance de todos. Alguns dirão que foram poucos os que dessa oportunidade aproveitaram. E isso é verdadeiro. Mas é assim o processo educacional. Nós somos educados naquilo que nos é oferecido diariamente para a nossa alimentação espiritual.

Ao longo de nossa história os bens culturais, desde os mais simples, esses que foram criados nas cozinhas das casas grandes, nos sobrados e nos palacetes, até as belas músicas criadas pelo padre Maurício, por Tom Jobim, Beethoven, Bach, Luiz Gonzaga, e muitos outros gênios ficaram distantes da formação cultural da maioria dos brasileiros. Os artistas, esses anjos da arte e dos sonhos que vivem entre nós, mas nós não conhecemos, permanecem desconhecidos enquanto a indústria cultural despeja a mediocridade mais abjeta sobre todos nós, estabelecendo padrões de beleza e felicidade de pouca qualidade. Assim, quando recebemos alguma pérola como essas oficinas, ainda temos dificuldades em apreciar as belezas que elas nos trazem.

Meus amigos, o PROGRAMA CANAVIAL se alegra com a Festival Pernambuco Nação Cultural que tem início nas terras da Ciranda, do Maracatu de Baque Solto, do Cavalo Marinho, dos Caboclinhos, das Pretinhas do Congo, dos Santos de Barros e de São Severino do Ramos; o PROGRAMA CANAVIAL deseja o mesmo sucesso em todas as regiões culturais de nosso Pernambuco.

Viva Pernambuco, Viva nossa Nação Cultural.   

para os programas do dia 09 de abril de 2011

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mar/11

25

Premiação que prejudica

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 110

PREMIAÇÃO QUE PREJUDICA

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos

            No começo do século passado, quando ainda havia muitos engenhos e bem mais sítios do que nos dias de hoje, na época do carnaval alguns homens começaram a se divertir saindo para brincar vestidos com roupas de suas mulheres: eram os cambindas; na mesma época outros homens começaram a vestir-se como índios caboclos e desfilavam nos sítios. No começo saiam sozinhos, iam de casa em casa pedindo ajuda e, logo começaram a se reunir e foram criando essa brincadeira bonita, com os caboclos seguindo e protegendo a bandeira de sua nação; assim é que se formou o Maracatu Rural, conhecido como Maracatu de Caboclo, ou Maracatu de Baque Solto. Como eles eram de sítios diferentes, às vezes quando os caboclos se encontravam podiam brigar e, muitas vezes um maracatu queria derrubar a bandeira do outro e, dizem que a briga era feia! Essa situação fez muito gente ficar com medo dos caboclos e dos maracatus que desfilavam com suas roupas coloridas, uma manta que cobria o surrão com uns chocalhos que fazia barulho cada vez que o caboclo dava um passo. O Maracatu quando vinha era bonita, mas dava muito medo por causa da violência. Uma violência causada pela disputa que fazia inimigos.

            Depois da metade dos anos de 1980, três mestres donos de maracatu: Mestre Batista, Mestre Hermenegildo e Mestre Salustiano compreenderam que a brincadeira do maracatu não crescia, não aumentava por causa das disputas entre eles, por causa da violência, então decidiram que deviam fazer alguma coisa para que os caboclos crescessem e o povo passasse a gostar mais de ver o maracatu passar. Batista, Hermenegildo e Salustiano então conversaram com outros donos de maracatu e fundaram a Associação dos maracatus de Baque Solto de Pernambuco.

Para ser sócio dessa sociedade os maracatus tiveram que se comprometer de não mais querer derrubar a bandeira do outro, não mais provocar briga. Começaram com 13 maracatus e, agora que não tem mais briga, são mais de cem, e a cada ano tem mais gente assistindo o desfile e mais rapazes e moças querendo entrar  na brincadeira para ser caboclo, para ser baiana, desfilar com o seu maracatu preferido.

Mas agora tem outro problema que precisa ser resolvido. A Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco teve um papel muito importante na superação da violência e na aceitação do maracatu por todo o povo de Pernambuco. Mas, o desfile que é promovido pela Prefeitura do Recife, que é um vitrine muito importante, pode prejudicar a brincadeira do Maracatu de Baque Solto com esse negócio de premiar o maracatu que ficar mais parecido com a corte do rei da França, usando cabeleira de nobre, sapato alto e pálio – esses guarda sol que protege o rei e a rainha – obrigando o pessoal pobre da Zona da Mata Norte investir muito dinheiro para sair na avenida e ser julgado como se fosse uma escola de samba do Rio de Janeiro. Tem gente que é convidada a ser jurado e nunca viu de perto um maracatu. Isso começa a criar problemas entre os maracatuzeiros e insatisfação entre os caboclos. É chegado o momento da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco dizer aos organizadores que o maracatu de baque solto é uma criação do povo da mata e precisa ser admirado como criação do povo.

            Meus amigos, o Programa Canavial começa, a partir desta semana, chamar todos os donos e mestres de maracatus para dizer que o Recife, como as outras prefeituras pode e deve ajudar a manifestação cultural que orgulha Pernambuco, mas deve parar de incentivar a disputa que os gloriosos mestres Batista, Salustiano e Hermenegildo organizaram e fortaleceram.

Para o dia 26 de março de 11

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mar/11

10

NOSSO CARNAVAL

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 108

NOSSO CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Passaram os três dias de carnaval e brincamos em todas as nossas cidades: o Zé Pereira alegrou a noite do sábado em Vicência que, na terça feira, dia 8, fez um belo desfile homenageando as mulheres no seu Dia Internacional. Aliança fez as honras à dona Ma ria Janira da Silva, uma das mais antigas animadoras do carnaval da cidade e, como sede da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco promoveu um belo carnaval. Goiana, com seus caboclinhos, as Pretinhas – do Baldo do Rio e de Carne de Vaca -, Maracatus teve a alegria de ver as orquestras retornarem às ruas acompanhando blocos como o As Insaciáveis. Timbaúba mais uma vez colocou os Bois no belo desfile que acontece todos os anos. Palcos com artistas locais e com convidados marcaram todas as nossas cidades.

Nazaré da Mata promoveu um dos mais belos carnavais com o tradicional Encontro de Maracatus, na sua 13ª terceira edição e seus blocos. O palco da catedral recebeu artistas locais e outros que visitaram a cidade. Momento especial foi Elba Ramalho louvando a Senhora de Nazaré com toda Praça da Catedral a cantar com ela. E a Praça Herculano Bandeira passou a ser chamada de Praça do Frevo, com as orquestras Pau de Corda, Capa Bode, Revoltosa mantinham a tradição de ouvir, cantar e dançar o passo, enquanto recebiam orquestra como a Orquestra Popular do Recife, liderada pelo Maestro Formiga.

Fizemos um lindo carnaval, fonte de alegria para os muitos turistas que visitaram nossas cidades, e de estudos para pesquisadores que se surpreendem com a vitalidade de nossas tradições.

O Programa Canavial a todos parabeniza e tem certeza que no próximo teremos mais e, nossas prefeituras estarão mais atentas para receber mais turistas, mais visitantes, mais foliões.  

 

Para os dias 11 e 12 de Março de 2011.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 107

A CAÇADA DO BODE E A GLÓRIA DA VIDA

Severino Vicente da Silva

Meus amigos,

Estamos na Semana Gorda – Sexta feira Gorda, Sábado de Zé Pereira, Domingo de Carnaval, Segunda Feira Gorda, Terça Feira Gorda, Quarta Feira Ingrata: é a semana do carnaval. Houve um tempo que era apenas três dias essa semana. “carnaval só tem três dias, foi os anjos que criou”, diz um frevo canção orquestrado por Nelson Ferreira. Hoje são muitos dias, pois vivemos em uma sociedade festiva na qual o trabalho é apenas uma atividade a mais enquanto se vive em busca do divertimento e dos espetáculos. E o carnaval parece ser apenas mais uma festa onde as pessoas cantam, bebem, dançam, se alegram e fazem o que normalmente não é feito. Mas não foi assim em todas as sociedades e, no Brasil, uma que é formada por muitas culturas o carnaval, para alguns brasileiros, não é assim. O carnaval é uma celebração às forças divinas.

As mais antigas festas do que chamamos carnaval era uma celebração em homenagem à deusa da primavera, a que traz a força da vida, a fertilidade da terra, a terra que nos alimenta com sua vegetação, suas aves e animais que sempre foram objeto de caça para a alimentação das tribos.

Capivara

Capivara

Meus amigos, muito antes desta nossa terra ser conhecida pelos europeus, muito antes de aqui chegarem os povos trazidos da África, aqui havia muitos povos, nações que estão hoje esquecidas e que falavam línguas diferentes da que falamos hoje, mas interessante é que nós ainda falamos as palavras que eles criaram, mesmo de maneira modificada. Pois veja como somos esses povos que não nos dizem, por isso falamos as palavras de antigamente. Os portugueses chegaram aqui em Igaraçu, ou seja, Canoa grande; eu tenho amigos que moram em Areia Branca, que é o sentido da palavra  Itaquitinga; outros amigos moram em Lagoa que Secou, quero dizer Upatininga; e o Mestre Batista, fundador do Maracatu Estrela de Ouro está enterrado na Casa de Tupá, que é Tupaoca. Mais perto do mar fica a Pedra que canta, que é o significado de Itamaracá, e para chegar lá eu preciso passar por Pedra Negra, ou seja, Itapissuma. A gente poderia continuar mostrando como a gente fala a língua dos nossos antepassados, mas como é tempo de carnaval, vamos conversar sobre a Caçada do Bode.bode

Como é sabido por todos, os povos que nossos antepassados viviam da caça e da pesca. O que eles caçavam era as capivaras, as antas, as cutias, os tatus, os veados, os jacus e muitos outros animais. Um dos preferidos era o veado. Hoje, como não há mais veados nas matas, as tribos de índios e caboclinhos que saem no carnaval, passam a noite do sábado em vigília e, na madrugada do domingo saem para a caça, e caçam um ou vários bodes que serão sacrificados para fazer a alimentação de todos da tribo que saem durante os três dias de carnaval. Depois do carnaval, na quarta feira, esses animais que foram mortos servem de alimento para toda a tribo que lutou durante os três dias para a glória da tribo. O carnaval, que parece ser uma guerra para conquistar as ruas e as cidades, termina na quarta feira com um grande banquete com muita comida resultante da caça do bode, um animal que simboliza muitas coisas, inclusive a caça que nossos antepassados faziam pata garantir a sobrevivência de toda a tribo.  

Meus amigos, essa tradição de nossos mais antigos antepassados é mantida em Goiana, na madrugada do domingo de carnaval pela Tribo Índio Tabajara, pela tribo União Sete Flexas de Goiana, pela Tribo Caboclinho Canidé.

caboclinho de Goiana - PE

caboclinho de Goiana - PE

Nós, do PROGRAMA CANAVIAL desejamos uma boa caçada às nossas tribos de índios e de caboclinhos; desejamos também que a felicidade dessa caça coletiva seja sinal da benção que a mãe natureza, com a Jurema Sagrada, o Espírito Santo, Oxóssi e a força de vontade de todos os homens e mulheres façam, do nosso carnaval uma eterna saudação à Vida.

 

 

Para os dias 4 e 5 de março de 2011

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fev/11

17

As burrinhas de Carnaval

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 105 

AS BURRINHAS

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos,

Nos dias de carnaval as ruas de nossas cidades ficam bem mais interessantes, pois nelas encontramos o passado delas, o nosso passado desfilando e nos fazendo sonhar e sorrir. Nos dias anteriores ao carnaval, já podemos encontrar crianças batendo lata acompanhando um urso e um caçador, aos gritos de “a La ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”, e, sem saber elas estão contando um tempo dos antepassados europeus, na Idade Média, que caçavam ursos e os levavam à feira para se divertirem. Pois é, nós não temos ursos, mas temos a brincadeira de uma das raízes formadoras da nossa cultura. E tem muito mais coisas que as ruas do carnaval nos ensinam de nossa história. Por exemplo, sabemos que o Maracatu de Baque Solto conta a vida e luta dos nossos antepassados indígenas que se tornaram caboclos para escapar da morte dos que lhes queriam tomar as terras. Por isso eles são guerreiros nessa luta simbólica. Mas no Maracatu Rural, como em outros brinquedos da Zona da Mata  e de outras partes do Brasil, tem um personagem interessante: a burrinha.

Quando passa o Maracatu, na frente vem o Bastião, a Catirina ou Catita e também a burrinha. Eles correm abrindo espaço para o Maracatu, e a Burrinha e com o seu relho põe os curiosos para mais distantes, abrindo espaço para os guerreiros e a tribo passar. A Burrinha é muito importante e está na construção da vida em todo o Brasil.

Uma vez escutei do meu querido Manuel Correia de Andrade, geógrafo que nasceu no engenho Jundiá, em Vicência, que nenhum animal foi mais importante na formação do Brasil que as mulas ou burros.  Eles são animais de forte ‘personalidade’ e difíceis de serem domados, mas são resistentes e por isso sempre foram usados para o transporte de cargas. Na nossa região, até pouco tempo, esses burros eram usados para transportar molhos da cana desde o canavial até os engenhos. Muitos homens trabalharam ao lado desses animais com cambiteiros, mesmos sem serem seus donos, pois elas pertenciam ao senhor de engenho que tomavam muito cuidado para que elas não fossem roubadas. Os caboclos mais velhos sabem da importância dessas burras.

As burras, vez por outra, eles empacavam e por teimosia não saiam do lugar, pois sua personalidade forte exige que sejam respeitadas e gostam de serem tratadas com carinho. Claro que no carnaval feito pelo povo as burrinhas encontraram seu lugar e são muito admiradas pelas crianças que gostam de brincar com elas, mesmo sabendo que elas saem correndo e pondo todo mundo a correr. As burrinhas são alegrias na frente das tribos de caboclos ou quando saem com um grupo tocando bombo, um tarol, um agogô, garrafas ou latas.

Da mesma forma que as burrinhas foram, e ainda são instrumentos dos homens para a construção da riqueza, nos nossos carnavais elas embelezam os dias de carnaval. Nas cidades dos canaviais sempre há algumas burrinhas que a cada ano saem a desfilar nas ruas das cidades. Em Goiana há muitos jovens que formaram grupos de percussão para acompanhar uma Burrinha. Lá a mais famosa burra atualmente é burra de Serginho que segue a tradição de Mestre Miguel e vem se tornando um símbolo do carnaval goianense.

O Programa Canavial nesta semana deseja homenagear todas Burrinhas de Carnaval que animam nossas cidades e fazem correr de susto e alegria as crianças, adocicando nossa existência, ao mesmo tempo que nos lembram as muitas jornadas nos canaviais de nossa terra. Viva as Burrinhas!!!!!

 

Para os programas dos dias18 e 19 de fevereiro de 2011

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jan/11

27

PREPARANDO O CARNAVAL

PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL

PREPARANDO O CARNAVAL

Severino Vicente da Silva

 

Meus amigos

 

Estamos chegando ao final de janeiro e nos aproximando do período de preparação para a maior festa popular, a festa que põe o mundo de cabeça para baixo, a festa que faz a gente viver os mais estranhos sonhos, os sonhos em que os homens e mulheres mais pobres saem para a rua com o orgulho de serem chefes de tribos, nações, príncipes, princesas. O Carnaval é a festa que os deixa imaginar e viver o mundo em que a gente se sente importante.

O Carnaval é uma criação de todos, dos pobres, principalmente, e dos ricos. O Carnaval é uma festa em que todos podem participar, porque ela acontece na rua e não precisa de muita coisa. Faz uns cento e cinqüenta anos que os bailes de carnaval aconteciam apenas nos clubes e os pobres que ali entravam era apenas para trabalhar. Mas aí, quando foi acabando a escravidão no Brasil, os homens e as mulheres livres, muitos deles ex-escravos, começaram a sair para brincar nas ruas como a imaginação permitia. Uma coisa que ajudou muito a invenção do Carnaval no Brasil foi o fato que as pessoas que tocavam nas bandas que acompanhavam as procissões eram pobres, antigos escravos ou filhos de escravos. Os músicos que tocavam acompanhando as procissões, também tocavam nas bandas militares e começaram a acompanhar as pessoas que formaram alguns blocos para sair nas ruas durante os dias de carnaval. E o interessante é que muitos dos primeiros blocos eram organizados de acordo com a profissão ou o ofício das pessoas. O Clube Vassourinhas, tanto no Recife quanto em Olinda era o clube das pessoas que varriam as ruas; havia o Clube dos Lenhadores, cujo nome indica a profissão, e assim muitos outros. Na nossa região da Mata Norte, começou a aparecer grupos de índios, como a Tribo Cahetés, ainda em 1904. Por esse período, muitos homens dos sítios, sujavam a cara com carvão saiam vestidos de com as roupas de suas mulheres e viravam Catirinas e saiam de Jereré e ficaram conhecidos como Cambindas, talvez porque bebiam cachaça e tiravam o gosto da branquinha com essa piaba que a gente compra seca nas feiras de nossas cidades. Outros se vestiam de índios e viravam caboclos com suas lanças, fazia medo a muita gente. Assim foi nascendo o nosso carnaval, o Maracatu de Baque Solto.

O nosso carnaval deve ser preparado pelos nossos prefeitos e secretários cuidando para que todas as nossas tradições sejam respeitadas, tanto as mais novas, muitas que chegam só para ficar algumas horas, quanto as que são criadas pela imaginação da gente.

Meus amigos, o Programa Canavial deseja que as Sambadas dos nossos maracatus aconteçam com  muita alegria na preparação do nosso carnaval.

 

Para os dias 28 e 29 de janeiro de 2011

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 100

15 DE JANEIRO DE 1685 – VILA DE GOIANA, CABEÇA DA CAPITANIA DE ITAMARACÁ

Severino Vicente da Silva

 

 

Meus amigos,

A Nação Cultural Pernambuco tem muitas vertentes, e todas elas estão repletas de criatividade, de bravura, solidariedade, ternura, músicas, ritmos, crenças, lugares sagrados, tudo sendo resultado de ações de homens e mulheres enquanto criavam seus filhos e filhas. As regiões geográficas de Pernambuco se confundem com as regiões culturais e, cada uma dessas regiões parece ter uma ou duas cidades símbolos. Assim, quando dizemos a palavra Sertão, é quase certo que nos vem à cabeça nomes como Petrolina, Exu, Serra Talhada.  Se dissermos Agreste Pesqueira, Garanhuns, Caruaru, Limoeiro e Surubim logo são lembradas. Litoral é região que lembra Olinda, Recife, Ponta de Pedras, Porto de Galinhas. E quando a palavra é Zona da Mata, no sul é Palmares e no Norte é Nazaré, Timbaúba, Vicência e Goiana.

Cada uma dessas cidades tem um mundão de histórias, e os homens e as mulheres criaram o tempo e o dividiram em semanas, meses, anos e séculos. Os seres humanos contam suas vidas contando os dias que vivem e lembrando alguns desses dias como momento a ser lembrado, que marca o início de um novo tempo.  Tem quem chame esses dias especiais como sendo datas históricas.

Meus amigos, o editorial de hoje quer se interessar por uma data histórica e importante para toda a Zona da Mata Norte, pois essa data, 15 de janeiro, nos lembra que no ano de 1685, Goiana passa a ser considerada uma vila, passando a ser a capital ou cabeça da Capitania de Itamaracá. E a Zona da Mata Norte era parte da Capitania de Itamaracá. Ao considerar Goiana como Vila – cidade – o governo do Império Português reconhecia a importância daquele povoado que vinha crescendo desde 1540. Pode-se dizer que o 15 de janeiro deve ser considerado um aniversário de Goiana como Cidade. O Programa Canavial Parabeniza Goiana por essa data, por ser uma das mais antigas cidades do Brasil. Goiana, Cabeça da Capitania de Itamaracá, cidade que deu origem a muitas cidades da Zona da Mata de Pernambuco. Parabéns à Goiana dos Caboclinhos.

Para os programas dos dias 14 e 15 de janeiro 2011.

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PROGRAMA CANAVIAL

EDITORIAL 98
 

O DOCE DA MATA NORTE

Severino Vicente da Silva
 

Meus amigos,

Estamos no final do ano e este é um tempo de verificar o que fizemos, nos alegrarmos pelo que foi feito e também ver o que poderemos melhorar no próximo ano.  Um dos motivos de alegria é o que ocorreu com a Pretinhas do Congo do Baldo do Rio,  de Goiana. Este ano, o grupo cultural que é mantido pela população de pescadores e trabalhadores de várias artes manuais do Baldo do Rio, apresentou-se em várias cidades de Pernambuco, assumindo o seu lugar em nossa Nação Cultural.

Neste final de ano, a  Pretinhas do Congo do Baldo do Rio está fazendo um encontro histórico na cidade de Floresta, no Sertão do Pajeú. É a festa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Igreja do Bom Jesus, onde ocorre a coroação do Rei e Rainha do Congo.  Festa dedicada a São Benedito,  marca o final e início do ano naquela cidade sertaneja que nasceu em torno da devoção de Nosso Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Que alegria da Pretinhas do Congo nesta festa que tem mais de duzentos anos. Um grupo cultural da Mata Norte de Pernambuco na festa cultural do Sertão do Pajeú. Vale lembrar para os tradicionais folcloristas, que esta festa de coroaçao do Rei do Congo não se transformou em Maracatu e continua sendo realizada no interior da Igreja. A Irmandade de Nosso Senhor do Rosário dos Pretos de Floresta é Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
 Outra alegria para nós foi a realização do Festival Canavial envolvendo Tracunhaém, Vicência, Nazaré da Mata, Condado e Goiana. Nossos grupos culturais estão cada vez mais cooperativos e animados. O Movimento Canavial está de parabéns, seja pela realização dos programas nas rádios comunitárias que, cada vez mais informam sobre a nossa cultura, nossos hábitos, nossas realizações, nossas dificuldades e nossos objetivos.
O Programa Canavial fica contente com a publicação do Jornal da Banda 28 de julho, de Condado, cada vez mais organizada e ativa, como também é ativa a Banda Curica de Goiana. Ficamos felizes com o Encontro de Ciranda realizada em Tracunhaém, e nos alegramos com o Encontro de Sanfoneiros de Vicência, que foram resultados de projetos nascidos e pensados e apresentados por gente e Pontos de Cultura de nossa querida Zona da Mata. Também vimos se realizados o Primeiro Encontro com os pequenos mestres da nossa cultura e o Priumeiro Encontro de Coquistas da Mata Norte.  Também aconteceu um curso de produção de instrumentos musicais. Foram tantas as iniciativas nascidas, construídas e realizadas na nossa Região da Mata Norte por pessoas daqui, por gente que a gente encontra na rua diariamente. Isso mostra que nós continuamos a ser um lugar de criação cultural e que a nossa juventude é uma juventude alegre, cuidadosa, criativa e que está construindo uma região cada vez melhor e mais consciente de si mesma.
Mas precisamos que as nossas escolas, os nossos professores, os líderes de nossas comunidades, os padres, os pastores, os babalorixás, os prefeitos, vereadores, juízes e todas as autoridades da região continuem a alimentar a esperança de nossa juventude, confiando nela e nas suas iniciativas. O verdadeiro doce da Mata Norte é a esperança e a certeza de nossas gerações.
Feliz Ano Novo com muitas realizações em 2001.
Esses são os desejos do Programa Canavial.

Para os dias 31 de dezembro de 2010 e 1º de janeiro de 2011

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