Lugares e pessoas que fazem a Cultura Viva

2010
06.01
Wanessa debate as regras com as crianças

Wanessa debate regras com as crianças. Foto de Biu Vicente

 

Numa tarde de chuva, sendo impossível brincar de bola ou corda no terreiro. Decidimos “forrar” as esteiras na já “pequena” casa-grande – repleta de livros, nos sentamos para conversar e contar histórias. Dessa vez uma história diferente. Não o baú de Ananse, que com uma teia de aranha espalhou as histórias pelo mundo. Mas, outra, tecida também numa teia, vinda de um emaranhando de pessoas e culturas, também espalhadas por vários pontos. A TEIA dos Pontos de Cultura, onde várias estórias se unem e se completam, ficando a deixa para contar mais um conto ou Ponto.

Dei início à viagem… Era uma vez…

No tecer dessa TEIA, no descobrir de coisas, já no alto (perto do fim), descobri um livro. Tirado não do baú, mas direto da gráfica, chegado de última hora para o seu lançamento pelo Secretario de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura – Célio Turino. O livro Histórias do Ponto – Lugares e Pessoas que fazem a Cultura Viva.

 

“Desde que iniciei a caminhada ao lado dos Pontos de Cultura, ouvi e vi tantas e impressionantes histórias se mesclarem num molejo tão sedutor; viravam sambas, construções, poesias, contos, músicas, vídeos, rodas. Viravam e reviravam a mesa já posta, simplesmente pelo prazer de se reinventarem. Cada história era única, ia se entrelaçando em outra, e de repente, se desdobrava na seqüência de uma, várias outras… Histórias de Ponto de Cultura é assim, junção de várias partes formando um todo, processos que se mesclam e interagem fazendo fecundar o próprio sentido. O sentido de desesconder as faces desse Brasil de tanta pluralidade.” (Célio Turino, Histórias do Ponto, 2010)

E numa surpresa estava lá, nossa Estrela de Ouro, também contemplada, mostrando um de seus protagonistas entre os 25 relatos. De primeira página, abrindo a vida do Mestre aprendiz – Ederlan Fábio – e do Ponto de Cultura Estrela de Ouro.

E no destrinchar das histórias do livro, percorrendo juntos os caminhos de tantos personagens (Ederlan, Beth de Oxum, Mestra Nicinha, Benedito do Rojão, Iraci, Potyra, e outros), tantas comunidades, tantos Pontos. Descobrimos Dereck Luan, que lá na Vila Alter do Chão – PA, no Ponto de Cultura da Oca, compartilha de estórias tão similares que as vividas aqui, nos distantes canaviais pernambucanos.

Crianças na sala

E na nossa grande roda, sentados nas esteiras, passo a leitura para os protagonistas mirins, Edna (13 anos), Adriano (13 anos) e Ailton (10 anos) – todos participantes das atividades do Ponto de Leitura Estrela de Ouro. E eles deram continuidade à leitura sobre Ederlan que aprende, com os Mestres da região, os saberes e fazeres repassados na tradição oral, aprendendo a cultura local e reconhecendo sua identidade; e Dereck, filho de um “Boto”, que não mediu esforços para criar um espaço de leitura na sua pequena comunidade de Vila de Alter – Biblioteca D. Benedita Lobato, homenagem a uma antiga moradora.

As crianças viram que existem finais felizes além dos contos de fadas, mas é preciso muito esforço e trabalho. E o mesmo protagonismo do filhinho do “Boto” lá do Pará, e do Mestre Aprendiz de Condado, pode acontecer na Chã de Camará.

Portanto, decidimos após a leitura, elaborar um texto para criar um livro contando a história e a identidade cultural dessas crianças que também fazem a Cultura Viva no terreiro da Chã de Camará. E três delas quiseram mostrar sua história além do livro, espalhar para outros pontos, para o mundo.

Aqui serão mostrados as histórias e desejos de personagens reais. Retratos e vozes de crianças que se encontram, viram enredos, tornam-se samba e invadem a alma com a vontade de serem observadas, vistas e ouvidas. Aproxime-se, abra bem os olhos e, quanto aos ouvidos, deixe-os afinados, para ouvir estas histórias com jeito de sambada.

 

Escrito por Wanessa Santos

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