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21 de abril: história e mitos

    Hoje é 21 de abril. O Brasil parou para homenagear e refletir sobre o exemplo de amor à pátria que José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, legou como exemplo para os brasileiros. Ouvi em uma emissora de rádio que ele era maçom, que a maçonaria não o deixou morrer na forca, tendo sido levado à forca um outro que recebeu a garantia de segurança para sua mulher e filhos. Assim, hoje aprendi que ele viveu alguns anos na Inglaterra, junto com sua namorada com quem viajou. Atualmente está em cartaz um filme – Joaquim – que o coloca como figura central no processo da independência do Brasil. Colocado como principal herói no Panteão Nacional, Capistrano de Abreu, o historiador que queria contar o Brasil a partir do Brasil, celebrou ter escrito Capítulos de História Colonial sem mencionar a Inconfidência Mineira nem a revolta dos senhores de engenho de Pernambuco. Para ele, nenhum desses acontecimentos tinha a profundidade suficiente para fazer parte da grande saga. Quando muito poderiam ser acontecimentos fundadores de uma história local. Claro que devemos fazer a separação entre a história e a criação de mitos fundadores da nacionalidade. Mitos tem base histórica mas superam o fato e tornam-se parte de uma religião civil.

    Cada geração, cada instituição, cada nação recria o seu passado, faz sua narrativa, e, embora os mortos governem os vivos, estes estão sempre a recontar a vida dos seus mortos, sempre a seu favor.
    A barba e os cabelos longos que o pintor Pedro Américo concedeu ao esquartejado, com o objetivo de agradar os líderes do movimento que pôs fim à monarquia, pareceu reviver na segunda metade do século XX no rosto de jovens metalúrgicos, sindicalistas, estudantes e alguns professores universitários brasileiros que se autodenominaram “heróis do povo brasileiro”. Diferentemente do tenente que tirava dentes nas Minas Gerais do século XVIII, estes últimos chegaram ao poder amaldiçoando o demônio americano, enquanto Joaquim tinha a república americana como modelo para a sua.

    Nem sempre a criação de mito é bem sucedida, especialmente quando ela acontece enquanto o herói está vivo. A escolha de como se será visto no futuro não depende da vontade do ‘herói’ enquanto vivo. Quando a morte chega pode ser o começar de uma nova vida, ou o esquecimento. Entretanto, nem Judas Iscariotes nem Silvério dos Reis foram esquecidos. Talvez desejassem.

    Nesse mesmo dia 21 de abril, li escrito de uma professora de história dizendo estar ela cansada de toda essa história de corrupção no Brasil, especialmente as reportagens que se ocupam em publicizar os depoimentos dos donos e diretores da Odebrecht. Ela chega a dizer que está cansada do Brasil desde algum tempo, e chega a pensar em deixar o Brasil. Creio que ela, como muitos, andou de braços com possíveis futuros mitos, e confundiram a história do Brasil com a história dos possíveis futuros mitos. Ela não percebeu que podemos manipular com mais facilidade os mortos que os vivos.